Estigma, emoção e linguagem: a ferida que ainda precisamos reconhecer e tratar

Em sua coluna, o psiquiatra Dr. Antônio Geraldo discute como a linguagem pode reforçar o estigma em saúde mental. Ele destaca que expressões usadas no dia a dia, fora do contexto clínico, contribuem para o preconceito e a desvalorização de pessoas com transtornos mentais.
Quando se diz que determinado comportamento é “esquizofrênico”, “bipolar” ou “depressivo”, fora de qualquer contexto clínico, a palavra deixa de informar e passa a ferir. Ela deixa de nomear uma condição de saúde ou doença e passa a sugerir defeito, instabilidade e, principalmente, desvalor. É uma forma de preconceito que costuma parecer aceitável justamente porque ainda não aprendemos, como sociedade, a reconhecer toda a sua gravidade.
O texto explica que palavras que deveriam estar ligadas ao cuidado acabam sendo transformadas em rótulos, ironias ou acusações, reforçando associações equivocadas entre transtornos mentais e ideias de descontrole, perigo ou inferioridade. Esse uso gera impactos emocionais profundos, como vergonha, medo e sensação de não pertencimento, além de contribuir para que muitas pessoas evitem buscar ajuda por receio de julgamento.
Dr. Antônio Geraldo reforça que os transtornos mentais são condições clínicas reais, com critérios diagnósticos e tratamento, e não devem ser reduzidos a adjetivos ou metáforas. Cuidar da linguagem, portanto, não é excesso de cuidado, mas uma responsabilidade ética. Combater o estigma passa por devolver às palavras seu papel original: o de acolher, informar e promover dignidade.
*Antônio Geraldo da Silva é médico formado pela Faculdade de Medicina na Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES. É psiquiatra pelo convênio HSVP/SES – HUB/UnB. É doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto – Portugal e possui Pós-Doutorado em Medicina Molecular pela Faculdade de Medicina da UFMG.
