Além do tratamento: entendendo a dependência química e o papel do HUB

14 de maio de 20265min111
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O HUB de Cuidados em Crack e outras Drogas completou três anos de atuação sob a direção do psiquiatra Dr. Quirino Cordeiro. 

 

Sua presença e experiência, como referência em saúde mental e dependência química, têm sido fundamentais para o fortalecimento de um cuidado qualificado e humanizado. Mais do que tratar, é essencial compreender por que é tão difícil interromper o uso de substâncias, um desafio que envolve não apenas comportamento, mas também alterações no funcionamento do cérebro.  


A dependência química é uma condição complexa que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. O tratamento vai além da interrupção do uso de substâncias: é fundamental oferecer acolhimento, escuta qualificada e acompanhamento ao longo de todo o processo de recuperação.
Nesse contexto, o HUB tem desempenhado um papel essencial ao oferecer assistência especializada a pessoas em situação de maior vulnerabilidade. No serviço, o cuidado começa com o processo de desintoxicação e segue com o encaminhamento para uma rede de serviços especializados, de acordo com as necessidades individuais de cada paciente, favorecendo a continuidade do tratamento e a reinserção social.

 

O que acontece no cérebro durante a dependência química?  

Do ponto de vista da neurociência, interromper o uso de substâncias pode ser difícil porque elas alteram o funcionamento do cérebro, especialmente os circuitos ligados ao prazer, à motivação e ao controle das decisões. Esse processo envolve o sistema de recompensa cerebral, que utiliza a dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e satisfação.

Substâncias como álcool, crack e outras drogas psicoativas provocam uma liberação intensa de dopamina, muito maior do que a gerada por atividades naturais, como comer, conviver socialmente ou realizar atividades prazerosas do dia a dia. Com o tempo, o cérebro passa a associar a substância a algo essencial para o bem-estar.

Além disso, ocorre a tolerância: o cérebro se adapta e passa a precisar de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito. Ao mesmo tempo, atividades cotidianas podem perder o prazer e o interesse. Há também prejuízos no córtex pré-frontal, região responsável pelo autocontrole, planejamento e tomada de decisões, o que ajuda a explicar por que a pessoa, mesmo consciente dos prejuízos, encontra dificuldade para interromper o uso.

Outro fator importante envolve a memória e os chamados “gatilhos”. Pessoas, lugares, emoções ou situações associadas ao consumo podem despertar um desejo intenso de usar novamente a substância, mesmo após períodos de abstinência.

Como entender isso no dia a dia?
Parar de usar uma substância é difícil porque ela modifica o funcionamento do cérebro ao longo do tempo. Aos poucos, o cérebro passa a “entender” aquela substância como necessária para se sentir bem. Enquanto isso, situações simples do cotidiano deixam de gerar prazer, e o autocontrole pode ficar mais prejudicado.
Por isso, mesmo sabendo dos riscos e consequências, a pessoa pode ter muita dificuldade para interromper o uso. Além disso, situações do dia a dia podem despertar uma vontade intensa de consumir novamente a substância.

A dependência química, portanto, não deve ser vista como falta de força de vontade, mas como uma condição que necessita de cuidado, apoio e tratamento adequado.

 

Diante dos desafios da dependência química, o trabalho desenvolvido pelo HUB mostra que é possível oferecer acolhimento, assistência especializada e caminhos para a recuperação e reinserção social.  


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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