Sonhos, propósito e cérebro: o que a neurociência explica?

17 de julho de 20267min129
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Ter um sonho, um objetivo ou um projeto que faça sentido pode mudar a forma como vivemos o dia a dia. Mais do que uma questão de motivação, a ciência mostra que estabelecer metas influencia o funcionamento do cérebro e pode trazer mais direção, esperança e significado para a vida.

Quando imaginamos um futuro que desejamos alcançar, seja melhorar a saúde, aprender uma nova habilidade, mudar de carreira ou realizar um projeto pessoal, nosso cérebro começa a trabalhar em favor desse objetivo. Essa expectativa ativa áreas relacionadas à motivação, ao aprendizado e à tomada de decisões, ajudando a direcionar nossos esforços para aquilo que consideramos importante.

 

O cérebro gosta de ter um propósito
Um dos sistemas envolvidos nesse processo é o chamado sistema de recompensa, responsável por nos incentivar a repetir comportamentos que percebemos como importantes ou benéficos.

Nesse contexto, a dopamina tem um papel fundamental. Durante muito tempo, acreditava-se que ela estivesse ligada apenas à sensação de prazer. Hoje sabemos que sua função é mais ampla: ela participa da motivação, da expectativa e da disposição para agir em direção a um objetivo. [1]

É por isso que, muitas vezes, não é apenas a conquista que nos movimenta. O próprio caminho pode ser fonte de satisfação. Planejar uma viagem, estudar para um concurso, preparar-se para conhecer alguém que admiramos ou dar os primeiros passos em um novo projeto costuma despertar entusiasmo e manter o cérebro engajado.

Além disso, cada pequeno avanço envia uma mensagem positiva ao cérebro. Aos poucos, essas conquistas reforçam a sensação de que vale a pena continuar.

 

O caminho também transforma quem somos
Outro conceito importante é a neuroplasticidade, que corresponde à capacidade do cérebro de criar novas conexões e se adaptar ao longo da vida. [2]

Sempre que aprendemos algo novo, mudamos um hábito ou desenvolvemos uma habilidade, nosso cérebro passa por mudanças. Isso significa que perseguir um sonho não transforma apenas a realidade ao nosso redor, também nos transforma por dentro.

Ao enfrentar desafios, persistir diante das dificuldades e encontrar novas formas de lidar com os obstáculos, desenvolvemos competências, amadurecemos emocionalmente e ampliamos nossa capacidade de adaptação. Muitas vezes, ao alcançar um objetivo, percebemos que já não somos a mesma pessoa que iniciou aquela caminhada.

 

Propósito dá sentido à caminhada
Ter um propósito pode trazer uma sensação maior de direção. Quando sabemos por que estamos fazendo algo, fica mais fácil organizar prioridades, lidar com os desafios e manter a constância, mesmo quando surgem dificuldades.
Mas é importante lembrar que a motivação não depende apenas do resultado final. Ela também nasce das pequenas vitórias do cotidiano.Quem decide cuidar da própria saúde, por exemplo, não percebe mudanças apenas quando atinge o peso desejado ou recebe alta de um tratamento. Dormir melhor, sentir mais disposição, conseguir manter uma nova rotina ou perceber pequenas evoluções ao longo do caminho também reforçam a sensação de progresso e incentivam a continuidade.Embora seja saudável ter objetivos, também é importante cultivar equilíbrio. Quando um sonho passa a ser acompanhado de cobranças excessivas, comparações constantes ou da sensação de que nunca fazemos o suficiente, ele pode deixar de ser uma fonte de motivação e se transformar em sofrimento.Na prática clínica, é comum encontrar pessoas que deixaram de valorizar o próprio crescimento porque passaram a acreditar que só terão valor quando atingirem determinada meta.

Por isso, dividir grandes objetivos em pequenas etapas costuma tornar o processo mais leve. Reconhecer os próprios avanços, mesmo que pareçam discretos, ajuda a manter a motivação e reduz a sensação de frustração.

 

Sonhar também é cuidar da saúde emocional
Sonhar não significa viver esperando pelo futuro. Significa construir, pouco a pouco, uma vida que faça sentido no presente.
A neurociência mostra que ter um propósito pode influenciar a forma como enfrentamos desafios, fazemos escolhas e interpretamos nossas experiências. Mais do que alcançar um destino, existe valor em tudo o que aprendemos durante o percurso.No fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “qual é o meu sonho?”, mas também:O que estou fazendo hoje para me aproximar dele?

Fontes:
[1] Livro: Nação dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar / Anna Lembke – 1ª edição. São Paulo: Vestígio, 2024.
[2] Livro: O cérebro que se transforma – Como a neurociência pode curar as pessoas / Norman Doidge, 26ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2026.


*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas)

Foto da Capa: Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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