Cannabis: a droga mais consumida no mundo e os riscos ignorados

23 de julho de 20258min26
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*Por Adriana Moraes

A cannabis continua sendo a droga mais consumida no mundo, e os dados recentes revelam uma tendência preocupante de crescimento em seu uso. De acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas 2025, cerca de 244 milhões de pessoas utilizaram cannabis ao menos uma vez em 2023, número que representa mais de 77% dos 316 milhões de usuários de drogas ilícitas (excluindo álcool e tabaco) registrados globalmente naquele ano.

Esse dado evidencia uma escalada contínua no consumo da substância:

– Em 2022, foram registrados 228 milhões de usuários;

– Em 2016, o número era de 192 milhões, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2018.

Ou seja, em apenas sete anos, o uso de cannabis aumentou em mais de 50 milhões de pessoas. Esse crescimento expressivo reforça a necessidade urgente de ampliar o debate público sobre os riscos associados à substância, sobretudo suas implicações para a saúde mental, como dependência, quadros de ansiedade, depressão e até transtornos psicóticos, especialmente entre os mais vulneráveis.

A visão equivocada sobre a maconha
No Brasil, a cannabis é mais conhecida como maconha, e muitas vezes é vista como algo “natural” ou inofensivo. Essa percepção equivocada tem contribuído para a banalização dos riscos, principalmente entre adolescentes e jovens adultos, que frequentemente experimentam a substância sem conhecimento dos possíveis efeitos adversos.

Apesar da crença comum de que se trata de “apenas uma erva” ou uma “planta natural”, é essencial reforçar que a maconha é uma substância psicoativa perturbadora, que atua diretamente no sistema nervoso central, com potencial para causar efeitos graves à saúde física e mental.

Vamos conhecer, a seguir, alguns dos efeitos negativos associados ao uso da cannabis:

Aumento da Potência do THC e seus Riscos à Saúde Mental
Nas últimas décadas, as preparações comerciais de cannabis têm apresentado concentrações progressivamente mais elevadas de tetrahidrocanabinol (THC). Esse aumento da potência está diretamente relacionado a um maior risco de efeitos adversos à saúde mental, incluindo episódios psicóticos, crises de ansiedade, pânico e desenvolvimento de dependência química.

Estudos indicam que o uso diário de cannabis com alta concentração de THC está associado a um aumento expressivo tanto na incidência quanto na gravidade dos transtornos psicóticos. Esses sintomas incluem os positivos, como delírios e alucinações, e os negativos, como apatia e isolamento social.

Portanto, o consumo frequente de cannabis de alta potência eleva o risco de desenvolver transtornos psicóticos ou de agravar sintomas já existentes, configurando um importante desafio para a saúde pública.

Impacto no cérebro em desenvolvimento
O uso precoce da cannabis, especialmente na adolescência, é um fator de risco para prejuízos cognitivos permanentes. Nessa fase, o cérebro ainda está em formação, e a exposição à maconha pode comprometer a memória, a atenção, o desempenho escolar e a saúde mental futura.

Síndrome amotivacional
Usuários frequentes de cannabis podem desenvolver a chamada síndrome amotivacional, caracterizada por apatia, desinteresse, isolamento social e dificuldade de manter rotinas e compromissos. Isso afeta diretamente a vida acadêmica, profissional e social.

Síndrome de abstinência e dependência
Embora muitos acreditem que a maconha não causa dependência, ela pode, sim, levar ao uso problemático e compulsivo. A interrupção repentina em pessoas dependentes pode provocar irritabilidade, insônia, ansiedade, depressão e falta de apetite, sintomas típicos da síndrome de abstinência da cannabis.

Consequências sociais e profissionais
O uso contínuo da maconha pode trazer impactos negativos na vida pessoal e profissional. Conflitos familiares, baixo rendimento no trabalho, absenteísmo e acidentes são algumas das possíveis consequências, muitas vezes subestimadas.

Confusão com o uso medicinal
É importante diferenciar o uso recreativo do uso medicinal supervisionado de derivados da cannabis. O fato de existirem formulações com canabidiol (CBD) aprovadas para algumas condições clínicas não significa que o uso livre da maconha seja seguro ou benéfico.

Um alerta necessário
Falar sobre a maconha com responsabilidade é uma questão de saúde pública. A informação correta, baseada em evidências científicas, pode proteger especialmente os mais jovens dos efeitos nocivos de uma substância muitas vezes tratada com descaso.

A cannabis, como alerta o Relatório Mundial sobre Drogas 2025, não é inofensiva: é uma droga psicoativa, com potenciais danos à saúde mental, física e social, que não podem mais ser ignorados.

Fontes:
[1]https://www.unodc.org/cofrb/pt/noticias/2025/6/relatorio-mundial-sobre-drogas-2025-do-unodc_-instabilidade-global-agrava-custos-sociais–economicos-e-de-seguranca-do-problema-mundial-das-drogas.html

[2] https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2024/06/relatorio-mundial-sobre-drogas-2024-do-unodc-alerta-para-o-crescimento-do-problema-das-drogas-no-mundo-em-meio–expanso-do-uso-e-dos-mercados-de-drogas.html

[3]https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2018/06/relatorio-mundial-drogas-2018.html

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Imagem de Erin Stone por Pixabay


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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