20 de outubro de 2021

Internação compulsória: o melhor caminho para tratar dependentes químicos?

26 de fevereiro de 201311min339
valdircampos

valdircamposSaúde mental
Escrito por Dr. Valdir Ribeiro Campos
ssa política de internação que está sendo implantada em São Paulo e pode ir para outras capitais, como Salvador, é a melhor forma de lidar com esse problema de saúde pública? Não seria mais sensato pensar em outras alternativas a longo prazo?
No caso da dependência de drogas, como o crack, e o estágio da doença, não se pode esperar muito.

No contexto de compreensão do mecanismo da doença, um dos aspectos mais importantes é o dos pacientes protelarem suas decisões em função do efeito das drogas no seu cérebro, gerando uma deterioração rápida e progressiva com complicações que podem tornar mais difícil o processo de recuperação. Não podemos ser coniventes com os pacientes em relação a esse aspecto de sua doença.
No caso do crack, que talvez hoje seja uma das drogas de mais difícil tratamento, por que ele tem um poder tão devastador? Por que é tão difícil tratá-lo?
O crack é a cocaína fumada e age no cérebro após cinco segundos; o efeito da droga também é rápido, durando em torno de cinco minutos. Toda droga que tem estas características de ação e efeito rápido tem maior potencial de causar dependência mais rápida e grave. Assim, ao usar a droga, o cérebro da pessoa é alterado e ela tem a necessidade de usar a droga em doses cada vez maiores e dificuldade em interromper o uso. Juntamente com este processo biológico, vai ocorrendo uma deterioração do comportamento do indivíduo no plano individual (psicológico), no relacionamento com as pessoas e o mundo, gerando abandono escolar, perda de emprego, dificuldades financeiras, envolvimento com o narcotráfico e o crime. Vários fatores são dificultadores para o tratamento de dependentes de crack, dentre eles os relacionados ao poder da droga de causar dependência, presença de outras doenças mentais como depressão, psicose, aceitação cultural e crenças individuais a respeito do consumo de drogas, disponibilidade e, principalmente, a ausência ou fragilidade de uma rede multiprofissional especializada e articulada para o tratamento e reinserção social do dependente de crack e outras drogas.
Em janeiro, começou em São Paulo o programa estadual de internação compulsória de dependentes químicos, especialmente os viciados em crack. Essa medida pode ser de alguma forma eficaz para o tratamento desses dependentes?
O tratamento  do dependente químico de um modo geral necessita de uma rede articulada de atendimento que vai desde o tratamento em nível primário de atendimento em saúde  (Unidades Comunitárias de Álcool e Drogas, Estratégia de Saúde da Família – ESF, ambulatório especializado), em centros de atenção psicossocial, moradia assistida, até a internação hospitalar ou em clínicas de recuperação. Nem todos os dependentes de crack necessitam ser internados. A internação é apenas uma fase do tratamento que isoladamente produz resultados de curto prazo. Entretanto, em casos em que o indivíduo já perdeu a capacidade de decidir por si e/ou oferece risco para si e outros, é necessária a internação compulsória. O mais importante é que após a internação os pacientes tenham continuidade do tratamento dentro de uma rede multiprofissional especializada e articulada em tratar dependente químico (em particular dependentes de crack), algo que ainda está distante da realidade de muitas cidades do país e da política nacional para as drogas.
A medida não pode ser vista como uma forma de “higienização social” da região da Cracolândia, onde fica localizada grande parte desses dependentes na cidade de São Paulo?
A área da dependência química é complexa e permeada por mitos, estigmas, preconceitos e ideologias. Assim como em São Paulo, inúmeras “cracrolândias” estão espalhadas pelo país aguardando alguma iniciativa ou política de assistência aos dependentes. É necessário que usuários, familiares, profissionais e planejadores possam se articular em busca da melhor assistência e tratamento. Estamos diante de um desafio em saúde pública que necessita de técnicos qualificados e de uma rede multiprofissional especializada e articulada para o tratamento e reinserção social dessas pessoas.
Essa política de internação que está sendo implantada em São Paulo e pode ir para outras capitais, como Salvador, é a melhor forma de lidar com esse problema de saúde pública? Não seria mais sensato pensar em outras alternativas a longo prazo?
No caso da dependência de drogas, como o crack, e o estágio da doença, não se pode esperar muito. No contexto de compreensão do mecanismo da doença, um dos aspectos mais importantes é o dos pacientes protelarem suas decisões em função do efeito das drogas no seu cérebro, gerando uma deterioração rápida e progressiva com complicações que podem tornar mais difícil o processo de recuperação. Não podemos ser coniventes com os pacientes em relação a esse aspecto de sua doença.
No caso do crack, que talvez hoje seja uma das drogas de mais difícil tratamento, por que ele tem um poder tão devastador? Por que é tão difícil tratá-lo?
O crack é a cocaína fumada e age no cérebro após cinco segundos; o efeito da droga também é rápido, durando em torno de cinco minutos. Toda droga que tem estas características de ação e efeito rápido tem maior potencial de causar dependência mais rápida e grave. Assim, ao usar a droga, o cérebro da pessoa é alterado e ela tem a necessidade de usar a droga em doses cada vez maiores e dificuldade em interromper o uso. Juntamente com este processo biológico, vai ocorrendo uma deterioração do comportamento do indivíduo no plano individual (psicológico), no relacionamento com as pessoas e o mundo, gerando abandono escolar, perda de emprego, dificuldades financeiras, envolvimento com o narcotráfico e o crime. Vários fatores são dificultadores para o tratamento de dependentes de crack, dentre eles os relacionados ao poder da droga de causar dependência, presença de outras doenças mentais como depressão, psicose, aceitação cultural e crenças individuais a respeito do consumo de drogas, disponibilidade e, principalmente, a ausência ou fragilidade de uma rede multiprofissional especializada e articulada para o tratamento e reinserção social do dependente de crack e outras drogas.
Valdir Ribeiro Campos, graduado em Medicina pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória – ES em 1992 – CRMMG: 25.974. Residência médica em psiquiatria pelo Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Estado de Minas Gerais – IPSEMG. Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP. Especialista em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Fundou e coordenou o serviço de dependência química do IPSEMG no período de 2002 a 2008. Foi membro da Comissão Municipal de Políticas para Álcool e Drogas – COMAD e colaborou tecnicamente no período de 2007 a 2010 para a criação do primeiro CERSAM-Álcool e Drogas do município de Belo Horizonte – MG. Doutor pelo Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Fundou em 2010 o ambulatório de dependência química da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – onde é preceptor de residência médica em psiquiatria. Membro da comissão de controle do tabagismo, alcoolismo e outras drogas da Associação Médica de Minas Gerais – Contad-AMMG.


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



Newsletter