Cocaína e córtex pré-frontal: impactos no autocontrole, na tomada de decisões e no comportamento

11 de junho de 20266min121
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*Por Adriana Moraes


O córtex pré-frontal é uma região do cérebro localizada na parte frontal da cabeça e funciona como um verdadeiro “centro de controle” das nossas ações. Ele é responsável por funções importantes como planejamento, tomada de decisões, controle dos impulsos, atenção, julgamento e regulação das emoções. Em outras palavras, ajuda a pessoa a avaliar consequências, fazer escolhas e controlar comportamentos.
A neurociência tem demonstrado que o uso de substâncias psicoativas pode interferir no funcionamento dessa área cerebral. Entre as drogas mais estudadas está a cocaína, uma substância estimulante do sistema nervoso central que produz efeitos importantes sobre os circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao comportamento.Ao atingir o cérebro, a cocaína interfere em sistemas neurais responsáveis pela sensação de recompensa e pelo controle do comportamento. Seus efeitos estão relacionados ao aumento da atividade de neurotransmissores envolvidos na motivação e na busca por recompensas, o que contribui para o potencial de repetição do uso.

 

Como a cocaína afeta o córtex pré-frontal?
Com o uso repetido, podem ocorrer alterações em regiões cerebrais relacionadas ao autocontrole, à atenção e à tomada de decisões, especialmente no córtex pré-frontal. Estudos mostram que o uso repetido de cocaína pode alterar o funcionamento dessa região, afetando circuitos neurais responsáveis pela avaliação de riscos, pelo planejamento e pela regulação dos impulsos.Quando o córtex pré-frontal não funciona adequadamente, a pessoa pode apresentar maior dificuldade para resistir ao impulso de usar a substância, mesmo diante de prejuízos pessoais, familiares, profissionais ou financeiros. Também podem surgir dificuldades relacionadas à atenção, ao julgamento e ao controle do comportamento, favorecendo atitudes impulsivas e compulsivas.

Do ponto de vista da neurociência, essas alterações ajudam a explicar por que a dependência química é considerada uma condição complexa, que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Embora as mudanças cerebrais não eliminem a capacidade de escolha da pessoa, elas podem tornar mais difícil o autocontrole e aumentar a vulnerabilidade à repetição do uso.

Consequências no comportamento e na segurança
Além dos impactos sobre o cérebro e o comportamento, a cocaína também pode comprometer habilidades fundamentais para a condução segura de veículos, como atenção, julgamento, tempo de reação e coordenação motora. De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD 2023), 19,9% dos usuários relataram já ter dirigido sob efeito da substância, e 1,2% afirmaram fazê-lo frequentemente, um dado que reforça os riscos associados ao consumo para a segurança no trânsito.

Apesar dos prejuízos associados ao uso da cocaína, estudos mostram que o cérebro possui capacidade de adaptação e reorganização. Com tratamento adequado, apoio profissional e acompanhamento contínuo, muitas funções cognitivas podem apresentar melhora ao longo do tempo, favorecendo a recuperação, a retomada da qualidade de vida e a reconstrução de projetos pessoais e sociais.

Compreender o papel do córtex pré-frontal ajuda a entender por que a dependência química vai além da simples falta de vontade. Essa região é fundamental para o autocontrole, a tomada de decisões e a avaliação de consequências, funções que podem ser afetadas pelo uso da cocaína, mas que também podem se fortalecer ao longo do processo de recuperação.

 
 
Fontes:
[1]  Mapeamento dos substratos neurais do desejo por cocaína: uma revisão sistemática – 
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38671981/


[2] Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD): Caderno temático cocaína e crack na população brasileira – Resultados 2023. São Paulo. Unifesp. 2025. Disponível em: https://lenad.uniad.org.br/cadernos-lenad/cocaina_crack_vf_04_300725.pdf
 


*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas)

 

Foto: Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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