Consumo de álcool por vítimas de homicídio na cidade de São Paulo

20 de novembro de 20096min

CISA

O consumo excessivo de álcool é um grave problema de saúde pública e um fator importante no desencadeamento de situações de violência, o que sugere uma associação entre a ingestão de álcool e a vitimização por homicídio. Sob o efeito do álcool, um indivíduo pode reagir agressivamente a um estímulo provocador, além de ser um alvo fácil para criminosos, pois o álcool diminui sua capacidade de reconhecer e agir em situações perigosas que podem resultar em homicídio.

Na região de maior prevalência de uso na vida de álcool (80,4%) no Brasil, a cidade de São Paulo já foi reportada como tendo uma alta densidade de pontos de venda de álcool (uma proporção estimada de 1 para cada 16 pessoas, num subúrbio de São Paulo), representando um enorme desafio para o controle do uso nocivo de álcool no país. Além disso, a associação entre uso de álcool e a vitimização por homicídios em São Paulo foi recentemente demonstrada em um estudo publicado na revista Addiction.

Nesse estudo, determinou-se a alcoolemia (concentração de álcool no sangue) de 2.042 vítimas de homicídios do ano de 2005, na cidade de São Paulo. Além disso, também foram avaliados: fatores demográficos (sexo, idade, etnia); método ou instrumento que provocou a morte (arma de fogo; arma branca, que seriam objetos cortantes, perfurantes, ou pérfuro-cortantes; e outros métodos, como afogamento, enforcamento, etc.); e dados circunstanciais (data, hora e local do homicídio). Os dados foram obtidos a partir dos laudos necroscópicos do Instituto Médico Legal de São Paulo (IML-SP) e da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP/SP).

Do total de vítimas de homicídio analisadas, 43% apresentaram alcoolemia positiva (maior que 0,2 g/l), mostrando que o consumo de álcool foi um fator freqüente entre as vítimas. A prevalência de alcoolemia positiva foi maior entre os homens (44,1%) do que em mulheres (26,6%), assim como os níveis médios de alcoolemia (homens: 1,56 +/- 0,86 g/l; mulheres: 1,21 +/- 0,65 g/l). Além disso, 26,1% e 37,6% das vítimas com alcoolemia positiva tinham entre 15 e 24 anos e entre 25 e 34 anos, respectivamente. Esses resultados são consistentes com estudos nacionais anteriores, que mostraram um maior consumo de álcool em homens do que mulheres e o uso freqüente de álcool entre os jovens. O estudo realizado em São Paulo também mostrou que cerca de 17% das vítimas menores de 18 anos apresentaram alcoolemia positiva – um sério motivo de preocupação, visto que não tinham idade mínima legal para comprar bebidas alcoólicas.

O consumo de álcool por parte das vítimas foi diferente de acordo com o método ou instrumento que provocou a morte: 40,1% das vítimas de armas de fogo e 60,6% das vítimas de armas brancas apresentaram alcoolemia positiva. Os autores do estudo sugerem que a maior prevalência de alcoolemia positiva em homicídios praticados com armas brancas pode indicar uma maior impulsividade nesse tipo de crime (como o uso de uma faca ou tesoura num momento de embriaguez). Também foi observado que 56,4% das vítimas com alcoolemia positiva foi morta nos fins de semana, fato que pode estar relacionado ao consumo de álcool de alto risco em bares e festas, mais comuns nesses dias. Em relação ao local do homicídio, na área central de São Paulo, houve uma correlação entre maior nível de alcoolemia e maior taxa de homicídios.

Os resultados desse estudo destacam o uso de álcool como um fator importante no processo de vitimização por homicídios na cidade de São Paulo. Assim, políticas direcionadas à diminuição do consumo de álcool de alto risco, utilizando-se uma estratégia com abordagem por áreas de risco, podem reduzir comportamentos violentos que muitas vezes culminam em situações violentas relacionadas ao álcool, como os homicídios. Da mesma maneira, sugere-se que políticas para medir e controlar a concentração de álcool nas vítimas e agressores em casos de violência (por exemplo, homicídios, agressões e violência doméstica) também poderiam auxiliar na prevenção e redução dos problemas relacionados ao uso de álcool.

Título: Alcohol consumption in homicide victims in the city of São Paulo

Autores: Andreuccetti G, de Carvalho HB, de Carvalho Ponce J, de Carvalho DG, Kahn T, Muñoz DR, Leyton V

Fonte: Addiction 2009 Dez;104(12):1998-2006

IF: 4,244

 


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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