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Comorbidade:
Transtorno do Déficit de Atenção nas Dependências Químicas
Marcos
Romano
O
conceito de comorbidade só se torna relevante quando pacientes com um
dos transtornos têm um risco maior de desenvolver o outro, ou se a co-ocorrência
altera significativamente o prognóstico, curso, resposta ao tratamento,
ou resultados de um ou ambos os transtornos1. A relação entre o TDAH e
abuso de substancias vem sendo objeto de relatos de caso e de pesquisas
há muito tempo2,3 e esta comorbidade torna-se um tema obrigatório para
aqueles profissionais que lidam com qualquer um dos dois transtornos,
já que pacientes que apresentam tal comorbidade tem necessidades específicas,
e tendem a responder ao tratamento de forma peculiar, necessitando de
abordagens especificamente direcionadas às suas necessidades.
O Transtorno
do Déficit de Atenção/Hiperatividade foi descrito pela primeira vez em
1902 pelo pediatra inglês George Still; antigamente chamado Disfunção
Cerebral Mínima; até pouco tempo só tinha sua existência reconhecida entre
as crianças, afetando de 6% a 9% delas4; acreditava-se que haveria remissão
espontânea dos sintomas da síndrome durante a adolescência. Hoje se sabe
que em 10% a 65% dos casos, a síndrome permanece até a idade adulta5,6,
com sintomas suficientemente debilitantes para comprometer o desempenho
acadêmico ou profissional, as relações interpessoais e para tornar tais
pessoas mais suscetíveis de desenvolver uma série de patologias psiquiátricas:
transtornos do humor, transtornos de ansiedade, transtornos de conduta,
transtornos de aprendizagem, transtornos do uso de substâncias7,8.
A
respeito do nome da síndrome, "déficit de atenção" não é exatamente o
problema; trata-se, na verdade, de uma falta de consistência no controle
e no direcionamento da atenção; sendo tais pessoas capazes, às vezes,
de momentos de hiperconcentração, imprevisíveis9. Atualmente, trabalha-se
com um conceito mais amplo da atenção, fruto de estudos cognitivos, onde
os processos cognitivos responsáveis pelas funções executivas são divididos
em cinco grupos1:
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1.
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ativação
e organização para o trabalho |
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2.
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atenção
sustentada e concentração |
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3.
|
esforço
sustentado |
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4.
|
manejo
de interferências afetivas |
|
5.
|
memória
de trabalho |
Tal
compreensão permite, inclusive, compreender melhor as diferentes manifestações
clínicas do TDAH.
As crianças com TDAH às vezes são descritas pelos pais como "prestando
atenção em tudo". Mas são facilmente distraídas, e com freqüência perdem-se
em devaneios; não terminam as tarefas, cometem erros por distração, confundem
instruções, tudo isso apesar de uma inteligência normal ou superior. Muitas
são impulsivas, impacientes, irritáveis, e incapazes de tolerar frustração.
Falam incessantemente, interrompem e intrometem-se nas brincadeiras ou
nas conversas dos outros, e são muito suscetíveis a acidentes (vivem machucando-se,
desde pequenos ferimentos e lacerações, até fraturas). A hiperatividade
física manifesta-se muito precocemente; são crianças difíceis de sentar
e permanecer quietas; quando precisam permanecer quietas, elas tamborilam
os dedos, sacodem as pernas ou batem os pés9.
Problemas do sono são freqüentes: dificuldade para acordar pela manha,
sonolência diurna excessiva em atividades que demandam atenção sustentada,
e dificuldade para iniciar o sono à noite1.
Mais de um quarto dessas crianças apresenta repetência escolar, e um terço
não conclui o segundo grau10. Conflito familiar é um dos maiores problemas
associados10. Sem um diagnóstico apropriado, os pais com freqüência culpam
a si mesmos, culpam-se mutuamente, ou culpam a criança. Esforços dos pais
para controlar a criança freqüentemente a tornam mais desafiadora e alheia.
Como resultado disso, com freqüência observamos baixa auto-estima, sentimentos
de inadequação social, história crônica de fracassos, baixo desempenho
escolar, elevada sensibilidade a críticas e um processo crônico de estigmatização,
sendo com freqüência rotuladas como apáticas, desmotivadas, preguiçosas,
desinteressadas, incompetentes, pouco esforçadas, irresponsáveis, ou simplesmente
"más". Os sintomas de hiperatividade e impulsividade tendem a diminuir
de intensidade, mas os problemas da atenção que persistem tendem a ser
ainda mais debilitantes.
Quando prejuízos atencionais estão presentes na infância, com ou sem hiperatividade,
tendem a persistir na idade adulta, com freqüência em formas que causam
problemas para tais indivíduos na escola, no trabalho, e nas relações
sociais11.
Estudos de seguimento de crianças com TDAH forneceram evidências de que
nem todas as crianças apresentam remissão da síndrome12-16. Estudos epidemiológicos
revelam que quase 5% dos adultos preenchem critérios para TDAH17. Em muitos
casos, adultos que foram "finalmente" diagnosticados com TDAH após anos
de funcionamento social e acadêmico insuficientes sentem um alivio e uma
explicação para anos de baixo desempenho e fracassos9. São pessoas que
apresentam sensação crônica de insegurança, é comum relatarem que se sentem
como se estivessem em um palco, porém sem script, sem saber qual o seu
papel; caminham pelo palco até perceberem que algo se passa ali - há atores
em cena, contracenando; intrometem-se então na conversa, sentem-se um
tanto deslocados, e aí saem, sem entender direito o que se passou; e têm
essa sensação no seu dia-a-dia.
Três subtipos de TDAH são reconhecidos: o tipo predominantemente desatento,
o predominantemente hiperativo-impulsivo, e o tipo combinado. Estudos
mais recentes indicam que a prevalência varia conforme a amostra estudada:
em amostras clínicas, o tipo combinado é o mais freqüente; em amostras
na comunidade, o tipo desatento apresenta uma prevalência maior (4,5%
a 9%), em seguida a maior prevalência é do tipo combinado (1,9% a 4,8%);
o tipo hiperativo-impulsivo responde por uma minoria dos casos, sua prevalência
variando de 1,7% a 3,9%27-29. A diferença na prevalência ente as amostras
clínicas e as da comunidade provavelmente é explicada pela probabilidade
maior de o tipo combinado buscar ajuda profissional, já que apresenta
sintomas que tendem a mobilizar mais as pessoas envolvidas (pais, professores)
do que o tipo desatento, que muitas vezes passa despercebido.
Critérios
diagnósticos do DSM-IV:
A. (1) ou (2):
(1) seis ou mais dos seguintes sintomas de desatenção persistiram por
pelo menos 6 meses, em grau desadaptado e inconsistente com o nível de
desenvolvimento:
Desatenção:
(a)
freqüentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por
descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras
(b)
com freqüência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades
lúdicas
(c)
com freqüência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra
(d)
com freqüência não segue instruções e não termina seus deveres escolares,
tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento
de oposição ou incapacidade de compreender instruções)
(e) com freqüência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades
(f) com freqüência evita, antipatiza ou reluta em envolver-se em tarefas
que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres
de casa)
(g) com freqüência perde coisas necessárias para tarefas ou atividade
(p. ex. brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais)
(h) é facilmente distraído por estímulos alheios a tarefa
(i) com freqüência apresenta esquecimentos em atividades diárias
(2)
Seis ou mais dos seguintes sintomas de hiperatividade/impulsividade por
pelo menos 6 meses em grau desadaptado e inconsistente com o nível de
desenvolvimento:
Hiperatividade:
(a) freqüentemente agita as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira
(b) freqüentemente abandona sua cadeira na sala de aula ou em outras situações
nas quais se espera que permaneça sentado
(c) freqüentemente corre ou escala em demasia, em situações nas quais
isto é inapropriado (em adolescentes ou adultos pode estar limitado a
sensações subjetivas de inquietação)
(d) com freqüência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente
em atividades de lazer
(e) está freqüentemente "a mil" ou muitas vezes age como se estivesse
"a todo vapor"
(f) freqüentemente fala em demasia Impulsividade:
(g) freqüentemente dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem
sido completadas
(h) com freqüência tem dificuldade em aguardar sua vez
(i) freqüentemente interrompe ou se mete em assuntos de outros (p. ex.
intromete-se em brincadeiras ou conversas)
B.
Alguns sintomas que causaram prejuízo estavam presentes antes dos 7 anos
de idade.
C. Algum prejuízo causado pelos sintomas está presente em dois ou mais
contextos (escola/trabalho/casa).
D. Deve haver claras evidências de prejuízo clinicamente significativo
no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
E. Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um T. Invasivo
do Desenvolvimento, Esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não
são melhor explicados por outro transtorno mental (T. Humor, T. Ansiedade,
T. Dissociativo, T. Personalidade).
Queixas
e observações mais comuns em adultos com TDAH 18:
- mudanças
rápidas e breves de humor
- temperamento
esquentado
- baixa
auto-estima; sentimento de inadequação
- intolerância
a stress; sentimento crônico de estar sobrecarregado
- desorganização
e ineficiência
- dificuldade
em concluir tarefas
- dificuldade
em relaxar
- sono agitado
- estilo
de vida excessivamente ativo
- esquecimentos
- falar
ou tomar decisões sem pensar
- fracasso
em atingir o potencial
- dificuldade
em manter empregos ou sustentar relacionamentos
- violência
doméstica
- abuso
de álcool ou outras drogas
Observações18:
- constante
e despropositado movimento de extremidades
- distratibilidade
- desinibição
- dificuldade
em acompanhar longas explanações
- desorganização
quando deve responder a questões abertas
- comportamentos
anti-sociais, compulsivos, de busca de estímulos
- teimosia
A
relação entre TDAH e transtornos do uso de substâncias
Há
cada vez mais evidências de que os dois transtornos apresentam estreita
relação2, compartilhando importantes características. Portadores de TDAH
experimentam drogas mais cedo, usam em maior quantidade, viciam-se mais
rápido, apresentam grau mais grave de dependência, apresentam um curso
mais longo da dependência, demoram mais para buscar tratamento e apresentam
mais problemas no tratamento.
Estudando 120 adultos com TDAH, Wilens e col.19 demonstraram que a experimentação
de substâncias ocorre em média três anos mais cedo do que em adultos normais.
O risco aumenta se houver Transtorno de Conduta associado. As razões que
aventa para isso são: menor percepção das conseqüências do abuso, maior
dificuldade de cessação do uso, menor senso crítico na escolha do grupo,
maior tendência de automedicação.
Biederman e col.20, compararam 120 adultos com TDAH e 268 adultos sem
TDAH, verificando um risco 2x maior para desenvolver transtorno do uso
de substâncias durante a vida entre os adultos com TDAH (52% x 27%).
Em um estudo mais recente, Biederman e col.21, estudando um grupo de 239
adultos com TDAH, concluíram que abuso do álcool precoce colocava tais
indivíduos em um risco muito maior de desenvolvimento de abuso de substâncias,
e que uma vez havendo abuso de substâncias, tais indivíduos tinham uma
propensão muito maior de cronificação dos problemas relacionados ao uso
de substâncias.
O abuso de substâncias também segue um curso mais prolongado nos adultos
com TDAH, comparados aos adultos sem TDAH; em média, o abuso de substâncias
dura três anos a mais entre os portadores de TDAH, e apresenta um índice
de remissão menor22.
Adultos com TDAH apresentam prevalência na vida muito maior para transtornos
do suo de substâncias: aproximadamente 33% dos adultos com TDAH apresentam
antecedentes de abuso ou dependência de álcool e 20% deles apresentam
história de abuso ou dependência de outras substâncias2,8.
O abuso ou dependência de álcool é o mais prevalente entre adultos com
TDAH, sendo a maconha a mais comum droga de abuso, seguida por estimulantes
e cocaína3.
Estudos com indivíduos que se apresentam para tratamento para abuso ou
dependência de substâncias revela alta prevalência de TDAH entre eles.
A prevalência de TDAH entre alcoolistas variou entre 17% a 50%23-25, e
a prevalência de TDAH ente abusadores de cocaína e opióides variou de
17% a 45%2.
Abusadores de cocaína com história de TDAH na infância eram mais jovens
na apresentação para tratamento, haviam tido um início precoce do abuso,
apresentavam com mais freqüência transtorno de conduta/transtorno anti-social,
e faziam um uso mais intenso de cocaína do que os que não tinham TDAH26.
Tratamento
Compreender a relação entre TDAH e DQ é fundamental por duas razões:
1) desenvolver intervenções terapêuticas apropriadas para esses pacientes,
e
2) desenvolver estratégias eficazes de prevenção ao abuso de álcool e
drogas em crianças e adolescentes.
A tarefa inicial do tratamento envolve educação sobre TDAH, o que por
si mesmo já pode trazer grande alívio do sofrimento psíquico do paciente
e uma redução dramática dos sintomas10,30 . Somando-se ao TDAH, tais pacientes
com freqüência apresentam baixa auto-estima, comportamentos de risco,
e dificuldades em seguir programas de 12 passos, além de psicoterapias
de grupo e individual2. Sessões estruturadas e sessões direcionadas aos
objetivos, com o terapeuta ativamente reforçando o conhecimento do paciente
sobre o TDAH e sobre o TUSP e examinando crenças errôneas sobre a história
das suas (do paciente) dificuldades, servem como um esqueleto de uma intervenção
eficaz2,30. Longas trocas verbais, extensas terapias em grupo, e ambientes
demasiadamente estimulantes devem ser evitados, pois com freqüência sobrecarregam
o paciente com TDAH/TUSP. Uso de modalidades outras que não as verbais/auditivas
podem ser úteis nessa população.
Ao avaliar um paciente com abuso de substâncias para a presença de TDAH,
um clínico se confronta com três problemas diagnósticos maiores. O primeiro
é que o diagnóstico requer uma história de TDAH na infância, o segundo
é a elevada incidência de transtornos psiquiátricos comórbidos com TDAH
e com TUSP, e o terceiro é a alta taxa de sobreposição de sintomas ente
TDAH, TUSP, e outros transtornos médicos e psiquiátricos.
TDAH adulto é a continuação de um transtorno que tem sua origem na infância.
Estritamente falando, não se pode fazer o diagnóstico de TDAH em um adulto
sem uma história infantil positiva para dificuldades de atenção, impulsividade
e hiperatividade31.
Avaliar sintomas primários de desatenção, impulsividade e hiperatividade
durante longos períodos de abstinência pode ajudar a clarear o quadro
clínico. Atenção especial deve ser dada à detecção de outros transtornos
psiquiátricos e cognitivos não diretamente relacionados ao TUSP. Ainda,
clínicos especialistas em adição e TDAH tem descoberto que intervenção
no tempo certo - mais precoce do que anteriormente recomendado - pode
ajudar a estabilizar a recuperação mais do que a coloca em risco32.
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