3 de dezembro de 2020

Uso de maconha e doença rara: hiperemese canábica

24 de fevereiro de 20157min

O paciente chega ao consultório relatando forte dor abdominal e vômitos severos e constantes. Ele tenta de tudo: toma antieméticos por conta própria, fica sem se alimentar e descobre que o banho quente melhora a náusea e o vômito. Começa então a usar bolsa de água quente no abdômen. Cada vez mais quente, ao ponto de queimar a pele. Às vezes fica embaixo do chuveiro muito quente, por minutos. Em crises muito severas, procura o pronto-socorro, toma medicação intravenosa, mas não melhora. Em uma das situações, após ser medicado e não experimentar nenhum bem-estar, chega a fugir do pronto-socorro para, em casa, tomar uma ducha quente — única maneira de aliviar a náusea, a dor abdominal e os vômitos. A investigação diagnóstica mostra ultrassom, tomografia, endoscopia e exames laboratoriais absolutamente normais.

O quadro descrito acima poderia ser de qualquer um dos pacientes encontrados em uns dos 44 artigos científicos publicados desde 2004 na literatura científica sobre Síndrome de Hiperemese por Canabinoide, associada ao uso crônico de maconha. Trata-se de casos relativamente raros e de difícil diagnóstico. Primeiro, porque nenhuma outra condição clínica conhecida melhora apenas com água quente. Segundo, porque todos os exames estão normais. Terceiro, porque a relação com o uso de maconha não é direta. O paciente faz uso crônico da droga, de repente começa a apresentar vômitos e dores abdominais, não faz uma relação entre o uso e os sintomas, e, portanto, não fala ao médico sobre isso. Quarto, por ser uma condição rara, os médicos nem sempre estão preparados para pensar nessa hipótese.

O primeiro artigo publicado em 2004 relatou uma série de 19 casos de usuários crônicos de maconha que apresentavam vômitos cíclicos que não cessavam com tratamentos tradicionais, porém a cessação do uso de maconha levou à cessação dos vômitos. Chamaram de Síndrome de Hiperemese Canábica. A fisiopatologia da doença, ou seja, os mecanismos pelos quais a maconha causa tais sintomas, não é conhecida. Sabe-se apenas que há uma relação. Mais estudos serão necessários.

O artigo com maior número de casos foi publicado por Simonetto e colaboradores, em 2012, na Clínica Mayo, nos Estados Unidos. Os autores reuniram 98 pacientes dos quais 68% usavam maconha há mais de 2 anos e 95% usavam numa frequência de mais de uma vez por semana. Oitenta e seis porcento% dos pacientes relatavam dor abdominal e 91% relatavam alívio dos sintomas com duchas ou banhos quentes. O seguimento de 10 pacientes mostrou que 86% apresentaram completa melhora dos sintomas quando pararam de usar maconha.

Um relato de caso publicado em 2014 também mostrou que após 16 anos de sintomas um paciente de 44 anos só melhorou após a abstinência total da maconha.

A causa é desconhecida. O fato de melhorar apenas com banho quente também. Não é psicogênico. Deve haver uma vasodilatação que, por algum motivo, melhora os sintomas. Mas ainda é especulação. O fato é que somente quando há uso em massa de uma droga é que se começa a descobrir doenças raras que vão se tornando mais frequentes pelo aumento do número de usuários e da capacidade de reconhecimento dos profissionais da saúde.

Referências

Allen JH1, de Moore GM, Heddle R, TwartzJC.Cannabinoid hyperemesis: cyclical hyperemesis in association with chronic cannabis abuse. Gut. 2004 Nov;53(11):1566-70.

Simonetto DA1, Oxentenko AS, Herman ML, Szostek JH.Cannabinoid hyperemesis: a case series of 98 patients. Mayo Clin Proc.2012 Feb;87(2):114-9. doi: 10.1016/j.mayocp.2011.10.005.

Cha JM1, Kozarek RA1, Lin OS1.Case of cannabinoid hyperemesis syndrome with long-term follow-up.World J Clin Cases. 2014 Dec 16;2(12):930-3. doi: 10.12998/wjcc.v2.i12.930.


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Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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