27 de setembro de 2020

Dr. Antônio Geraldo – Presidente Eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina, fala sobre Dependência Química e Suicídio

19 de setembro de 201720min

 

“Levar informações corretas à população é uma das formas de alertar sobre a prevenção do suicídio, que é possível de ser feita” Dr. Antônio Geraldo

 

*Por Adriana Moraes 

Suicídio é um assunto extremamente difícil e delicado, porém necessário e esse mês de setembro conhecido como “setembro amarelo” é dedicado a prevenção ao suicídio.   

Falar do suicídio é o primeiro passo dentro da estratégia de prevenção. Porque, falando nós estamos compartilhando informações importantes, trazendo o tema à tona e assim permitindo a construção de uma rede de proteção que envolva toda a sociedade. [1]

 A dependência química de crack/cocaína combinada entre eles o transtorno de estresse pós-traumático, a depressão, a ansiedade, a distimia, bem como os transtornos de personalidade borderline, pode aumentar em até 10 vezes o risco de suicídio com algumas dessas comorbidades. [2]

 Psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva

O psiquiatra Dr. Antônio Geraldo da Silva, Diretor Tesoureiro da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e Presidente Eleito da APAL (Associação Psiquiátrica da América Latina), esclarece para nossos leitores diversas questões sobre o uso de drogas e suicídios. 

Suicídio e dependência química, ambos são carregados de preconceito e estigma. Esse tema é de grande importância, principalmente, por conta do grande aumento de pessoas que tiram a própria vida em nosso país.

Entrevista:

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1ª) Usuários de drogas são responsáveis por um número maior de tentativas de suicídio? 

Os transtornos por uso de substâncias estão em segundo lugar nos casos de morte por suicídio, atrás apenas dos transtornos de humor, com a incidência de 22,4%. 

2ª) Hoje o suicídio pode ser definido como uma epidemia silenciosa?

Podemos definir o suicídio como um problema de saúde pública, mas é necessário tomar cuidado com a palavra “epidemia”. Além do termo não ser adequado para o caso, a ênfase pode trazer o foco de forma positiva, causando alarme.  

3ª) Em que idade os suicídios são mais frequentes e qual a taxa de suicídios no Brasil?

O suicídio atinge principalmente dois grupos, adolescentes e jovens adultos (alguns estudos apontam entre 15 a 29 anos) e idosos. Nos jovens, as motivações são complexas incluindo humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais. Para os idosos, os fatores se devem a perda de parentes (especialmente cônjuges), solidão, doenças degenerativas e dolorosas, se sentir um peso para os demais membros da família.

Em 2015, foram aproximadamente 12 mil casos de suicídio no Brasil. Mas acreditamos que esse número é muito maior, devido à subnotificação: nem todos os casos de morte por suicídio são notificados compulsoriamente, como orienta o Ministério da Saúde. Isso se deve ao grande tabu que o suicídio ainda representa e a fatores religiosos, ou ainda, devido a questões como seguro de vida.

4ª) Na matéria da Revista Exame em agosto de 2014, o Sr. disse que: “Ao contrário do que se pensa, as pessoas não vão se matar se a mídia falar mais sobre o suicídio, o importante é a orientação sobre isso”.  Atualmente como a mídia trata o problema do suicídio e como tem colaborado nesta campanha?

O tratamento que a mídia dá ao tema já melhorou muito, mas ainda não está adequado. Grandes meios de comunicação já seguem as recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre o noticiamento das mortes por suicídio, mas grande parte ainda o faz de forma irresponsável. Infelizmente, ainda são poucos os meios de comunicação que se atentam para esse cuidado. Com isso em vista, a ABP relançou o seu manual dirigido a profissionais da imprensa, que orienta quanto à forma correta de noticiar, ele está disponível para download em nosso site. [3]

O apoio da mídia é fundamental para que possamos modificar esse triste panorama e a ABP está à disposição. Levar informações corretas à população é uma das formas de alertar sobre a prevenção do suicídio, que é possível de ser feita. 

5ª) Como a mídia deve noticiar um suicídio?

Geralmente, o suicídio vira notícia em casos específicos, como o envolvimento de pessoas famosas ou situações de grande violência. O ideal é que, acompanhando a notícia, venham informações que mostrem que o suicídio pode ser evitado – entrevistas com sobreviventes, a relação deste tipo de morte com a presença de doenças mentais que, quando tratadas corretamente, anulam o risco de suicídio.  

6ª) Por que os jovens brasileiros estão cometendo suicídio no auge de sua juventude?

O suicídio de jovens e adolescentes se deve a uma gama de fatores, que são muito complexos. Como nas outras faixas etárias, também há a presença de doenças mentais, como depressão e ansiedade.Como respondido em uma das perguntas acima, há também o abuso de substâncias, que começa cada vez mais cedo, os problemas emocionais e familiares naturais do período da adolescência. Alguns outros aspectos como rejeição familiar, negligência e episódios de abusos físicos e/ou sexuais na infância também são fatores de risco.  

7ª) Recentemente a mídia passou a falar mais sobre o suicídio entre jovens, especialmente por conta da série “os 13 porquês”, que aborda a vida de uma adolescente que tira a própria vida e a disseminação do jogo suicida praticado pela internet “Baleia Azul” composto por diversos desafios, envolvendo a automutilação, isolamento social e incentivo ao suicídio. Dr. Antônio, em sua opinião a mídia está correta em divulgar esses 02 fenômenos?

Falar sobre o assunto é imprescindível, mas deve ser feito da forma correta. Temos que ter em mente que a série ou o jogo, por si só, não influenciam ninguém ao suicídio – é uma combinação de fatores que culminam com as informações do jogo/série. Precisamos mostrar ao jovem que há alternativas ao suicídio através do tratamento da depressão, mostrando casos de superação das ideações suicidas. 

8ª) O suicídio geralmente está ligado à transtornos mentais e a depressão?

Com certeza. Mais de 90% das mortes por suicídio estão relacionadas com alguma doença mental. As de maior incidência são os transtornos de humor (como a depressão e o transtorno bipolar), transtornos por uso de substâncias, a esquizofrenia e os transtornos de personalidade. Quando há comorbidade, ou seja, mais de um transtorno psiquiátrico em um paciente, os riscos são ainda maiores. 

9ª) Como podemos ajudar a prevenir o suicídio?

Falar corretamente sobre o assunto e ajudar a diminuir o tabu é uma das formas. Lembrar que o suicídio é evitável e que o tratamento das doenças psiquiátricas é fundamental para que ele não aconteça. Ficar mais atento aos nossos colegas, familiares e, ao perceber alguma característica de transtorno mental ou ideação suicida, auxiliá-lo na busca por tratamento. A prevenção do suicídio envolve a todos, individual e coletivamente. Sociedade civil organizada, por público, médicos psiquiatras e seus pacientes/familiares. Todos devemos fazer a nossa parte para mudar este triste quadro. 

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Dr. Antônio, grata pelas informações sobre esse tema polêmico, mas muito importante!

                                                                                                                        

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências                                         

[1] Trigueiro, André, 1966 – Viver é a melhor opção: a prevenção do suicídio no Brasil e no mundo/André Trigueiro – São Bernardo do Campo. SP: Correio Fraterno, 2015.

[2]O tratamento do usuário de crack – Marcelo Ribeiro, Ronaldo Laranjeira (Orgs) 2ª edição – Porto Alegre: Artmed, 2012. 

[3] http://www.abp.org.br/portal/wp-content/upload/2017/08/cartilhaA5_2017.pdf


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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