Os números e as palavras

8 de março de 20174min

CREMESP

Mauro Aranha – Presidente do Cremesp

Se me fosse dado, de forma irrecusável, escolher entre números e palavras, escolheria as palavras. Ainda que números signifiquem inequívocas quantificações, e as palavras pequem pela exatidão e uniformidade de sentidos, são estas que estruturam arrazoados que intentam esclarecer os conjuntos e contextos em que aqueles nos são postos.
Vejam alguns dados presentes nesta edição do Jornal do Cremesp.

A recém-lançada Demografia Médica do Estado de São Paulo aponta que somos 2,79 médicos por mil habitantes, numericamente próximos à Inglaterra (2,8/1000) e ao Canadá (2,4/1000). Na metrópole paulistana somos 4,58 médicos por mil habitantes. Pergunto: temos oferta em serviços de saúde melhor ou equivalente à dos países citados? A distribuição de nossos médicos, em face do território, obedece ao critério de equidade? Quantos, em que condições de trabalho, e com que resolutividade, na região da Avenida Paulista, e quantos nos confins da zona leste e zona sul da Capital?

Capital cujo novo secretário de Saúde anuncia, em outra matéria, o agendamento, em 90 dias, da totalidade residual de exames complementares prescritos por médicos da esfera pública, a serem realizados em 43 hospitais privados. Melhor do que nada (digo sem ironia), mas longe de significar uma solução sistêmica para a grave desassistência médica por que passamos (tão bem retratada na edição anterior do JC).

Estendendo um pouco mais a reflexão sobre a preferência entre números e palavras, no início deste fevereiro, em rede social, alguns poucos médicos supostamente teriam violado o sigilo médico (Artigo 73 do Código de Ética Médica) relativo à internação e doen­ça de pessoa pública, e, outros, ferido a dignidade da mesma (Artigo 23), ao insinuarem que nada fos-

se feito para salvá-la. Serão sindicados por esta Casa. Numericamente, pouquíssimos médicos. Mas, a que custo para os circundantes da pessoa inconsciente que sofre? A que custo para a imagem da Medicina brasileira? E para a esperança dos que trabalham e vivem por um País solidário e melhor?

Se números, no mais das vezes, encobrem a verdade quando em contextos ou enunciados de palavras vãs ou enganosas, prefiro a transparência e a evidência dos grandes gestos. A inequivocidade dos gestos que aproximam pessoas, que lhes promovem direitos, que lhes confortem os sofrimentos. Tudo o mais é duvidoso. E, como bem resumia o velho bardo, o resto é silêncio.

Mauro Gomes Aranha de Lima
Presidente do Cremesp


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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