Cannabis medicinal é muito risco para (quase) nenhum benefício

23 de fevereiro de 202673min72
canabis
*Por Ronaldo Laranjeira
 

Em meu artigo publicado na Folha de S.Paulo, discuto de forma crítica o avanço da regulamentação do cultivo de Cannabis para fins medicinais no Brasil. Destaco que a Anvisa avançou no tema após determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), embora o assunto ainda não tenha sido deliberado pelo Congresso Nacional.

Do ponto de vista científico, ressalto que o entusiasmo em torno da Cannabis medicinal não é plenamente sustentado por evidências robustas. Revisões amplas, como as publicadas no Journal of the American Medical Association (JAMA), indicam que, para muitas das condições frequentemente divulgadas,  incluindo dor aguda, insônia, ansiedade e depressão, os dados ainda são frágeis ou inconclusivos. As exceções existem, mas são raras e restritas a formulações farmacêuticas padronizadas.

Também enfatizo que diretrizes clínicas baseadas em evidência não recomendam Cannabis inalada nem produtos com alto teor de THC para uso médico. Ainda assim, observo que esse tipo de produto tende a ganhar espaço quando o discurso medicinal se mistura a interesses comerciais e pressões sociais.

No artigo, abordo ainda os riscos associados ao uso da substância. A literatura científica aponta associações com sintomas psicóticos, prejuízos cognitivos, piora de quadros de ansiedade e depressão, além de possíveis impactos cardiovasculares em usuários frequentes. No campo da dependência, destaco que o chamado “uso medicinal” não demonstrou reduzir o risco de transtorno por uso de Cannabis.

Outro ponto central da análise envolve os desafios regulatórios. Embora a regulamentação da Anvisa estabeleça limites de THC e controle rigoroso, a experiência internacional sugere que esses parâmetros podem ser desrespeitados ao longo da cadeia produtiva, seja por falhas técnicas ou desvios deliberados.

Por fim, reflito sobre os possíveis impactos na saúde pública. A produção em território nacional pode facilitar desvios e alimentar mercados paralelos, além de influenciar a percepção de risco da população, especialmente entre jovens. Reforço que, em saúde pública, prudência não é conservadorismo, é responsabilidade.

 
 
Ronaldo Laranjeira – Médico psiquiatra especialista em álcool e drogas – Presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina)
 
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Foto da Capa por Folha de São Paulo

Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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