“Detox” de dopamina: é possível ‘resetar’ o cérebro? O que a neurociência revela

1 de julho de 20266min45
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Nos últimos anos, o termo jejum de dopamina ou detox de dopamina ganhou popularidade nas redes sociais. A proposta costuma ser apresentada como uma forma de “resetar” o cérebro, reduzindo temporariamente atividades consideradas muito prazerosas, como o uso excessivo de celular, redes sociais, jogos, compras ou outros estímulos.

Mas qual é a relação entre esse conceito e a saúde mental? Será que diminuir estímulos realmente pode ajudar no bem-estar? É possível fazer um jejum de dopamina? E o que a neurociência explica sobre isso?

A primeira informação importante é: não é possível fazer um jejum de dopamina literalmente.

A dopamina é um neurotransmissor produzido naturalmente pelo cérebro e participa de diversas funções essenciais, como motivação, aprendizagem, movimento, atenção e processamento de recompensas. Ela não é uma substância que pode simplesmente ser eliminada ou desligada.

O que algumas pessoas chamam de “jejum de dopamina” está mais relacionado a uma redução consciente de estímulos que oferecem recompensas rápidas e frequentes. A ideia não é diminuir a dopamina do cérebro, mas observar hábitos e desenvolver uma relação mais equilibrada com esses estímulos.


Como funciona o circuito de recompensa da dopamina no cérebro?

Quando recebemos uma recompensa, como uma curtida em uma rede social, uma vitória em um jogo, uma compra desejada ou o consumo de uma substância, o cérebro ativa circuitos envolvidos na motivação e na busca por recompensas.
Um ponto importante é que a dopamina está muito relacionada à expectativa e à motivação para buscar uma recompensa, e não apenas ao prazer em si.

Por exemplo: quando uma pessoa recebe uma notificação no celular, a expectativa de encontrar uma mensagem, uma curtida ou uma novidade já pode ativar esse sistema de recompensa.

A dopamina participa desse processo, mas não atua sozinha. Outros mensageiros químicos do cérebro, como serotonina, glutamato e GABA, também estão envolvidos em diferentes aspectos das emoções, aprendizagem, motivação e equilíbrio cerebral.

Quando o excesso de estímulos pode se tornar um problema?
Segundo Anna Lembke, autora do livro Nação Dopamina, o problema pode surgir quando o cérebro é exposto repetidamente a estímulos muito intensos e frequentes.

O cérebro possui mecanismos de adaptação. Diante de recompensas rápidas e constantes, algumas pessoas podem perceber uma redução temporária na sensibilidade aos estímulos prazerosos, aumentando a busca por novas recompensas.

Esse processo pode contribuir para comportamentos compulsivos, em que a pessoa continua buscando determinado estímulo mesmo percebendo possíveis prejuízos.

Então precisamos fazer um “jejum de dopamina”?
A resposta da ciência é mais complexa do que simplesmente “sim” ou “não”.

O chamado “jejum de dopamina” não reduz a dopamina do organismo nem funciona como uma “limpeza cerebral”. O que pode ser útil é reduzir excessos, criar momentos de pausa e observar como determinados estímulos influenciam nossos hábitos.

A ideia central não é eliminar o prazer, mas recuperar equilíbrio: permitir que o cérebro tenha contato também com experiências menos imediatas, como ler, conversar, praticar exercícios, desenvolver habilidades e realizar tarefas que exigem esforço, foco e paciência.

O livro Nação Dopamina traz uma reflexão importante: em uma sociedade com acesso constante a recompensas rápidas, aprender a lidar com o prazer, a espera e o desconforto pode ser uma habilidade importante.

Mais do que um “detox” de dopamina, talvez a grande questão seja: Estamos escolhendo nossos estímulos ou estamos sendo conduzidos por eles?

Fonte: 
Lembke, Anna. Nação Dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. 1ª edição. São Paulo: Vestígio, 2024.
 

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas)

Imagem de Dee por Pixabay


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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