2 de abril de 20205min

O mundo está diante de um mercado bilionário, que vem se sofisticando e assimilando novas áreas de atuação. Detalhe: ele é ilegal e nocivo para a sociedade. O mercado das drogas ilícitas. O tráfico é crime, mas também é negócio. E ele mudou.

Quando a maioria das pessoas o imagina, logo pensa em bocas de fumo, traficantes nas ruas, etc; mas não é só isso. Os narcotraficantes compreenderam o funcionamento de grandes corporações e se aproveitaram dos avanços tecnológicos, de transpor te e comunicação para transformar seu mercado.

Hoje, os cartéis administram o tráfico com parcerias com fornecedores, entendimento sobre a concorrência e buscando suprir a necessidade dos clientes por seu produto. Lógico que suas “estratégias de gestão” envolvem crime e violência, mas a linha de pensamento sobre como administrar o negócio tornou-se corporativa.

Como recrutam “funcionários”? Prisões que não reinserem o detento na sociedade. Buscam também profissionais de diversos setores, prometendo altos retornos financeiros. Possuem até códigos de ética! E o transporte de mercadoria? Parceiros em vários países resolvem a logística. Entram na lista os e-commerces via deep web e novas frentes de negócios, como prostituição, tráficos de armas e pessoas. Alguns cartéis, como em El Salvador, buscam até fusões para diminuir a violência e os prejuízos, dividindo mercados e garantindo lucro a todos.

Em termos de saúde, falamos de algo que provoca cerca de 60 mil homicídios por ano no Brasil. Poucas doenças se equiparam a isso. Mas, quando tratamos uma enfermidade, não combatemos só os sintomas – as causas também. E essa premissa não é seguida por governos mundo afora.

No Brasil, ainda não entendemos totalmente o real alcance e funcionamento das operações dos narcos. Veja a complexidade enfrentada no Rio de Janeiro, com milicianos competindo com traficantes. Ou em Guiné-Bissau, na África, considerado um narcoestado para transferência da cocaína entre a América Latina e a Europa?

O cuidado hoje é sintomático. São presos principalmente os soldados do crime e feitas apreensões de drogas e contrabando.

Pouco se combate ou se sabe sobre as causas: quem realmente financia, lucra com o tráfico e a extensão de suas redes criminosas.

Aí surge a pergunta: legalizar as drogas resolve o problema? Não existem dados conclusivos que mostrem que a descriminalização promova resultados positivos, como eliminar o tráfico. O European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction aponta até que ele aumentou em Portugal, que descriminalizou o consumo de drogas. E o problema não reside apenas nisso. Existe o impacto em saúde e a venda de produtos paralelos pelos criminosos, sem incidência de impostos – lembremos, nos dois casos, do álcool e do tabaco. Além do fato de já terem diversificado suas atividades ilegais.

Não é melhor corrigir o curso e reunir esforços para criar uma rede de inteligência internacional de combate ao crime organizado? Apenas estratégias locais não resolvem a situação. Por que não oferecer reabilitação eficaz nos sistemas penais, visando verdadeiramente reinserir pessoas na sociedade e diminuir o exército do crime? Essas são algumas de tantas possibilidades que podem ser utilizadas para sufocar o narcotráfico.

Já passou da hora de realmente usarmos serviços de inteligência nesta luta. Eles já são usados para expandir negócios ilegais. A gravidade da situação pede uma resposta a altura: o crime organizado mudou e o modo de combatê-lo precisa mudar também.

Por Dr. Ronaldo Laranjeira, Professor Titular de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina – publicado originalmente na edição n° 247 da RevistAE – Abril/2020.


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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