27 de setembro de 2020

Maconha, feijoada e o debate sobre a legalização das drogas

22 de julho de 20107min

Por José Alexandre de Souza Crippa
A feijoada é um dos pratos mais típicos da cozinha brasileira sendo comumente feita da mistura de feijão preto e de vários tipos de carne de porco e de boi. Chega a mesa acompanhada de arroz, farofa, couve refogada e laranja fatiada, entre outros ingredientes. Nas receitas mais sofisticadas não possui mais do que 30 ingredientes, incluindo-se os acompanhamentos e temperos. Mesmo aquele que não é cozinheiro, chef ou especialista em gastronomia sabe distinguir o feijão – principal ingrediente do prato – da feijoada completa. Ou seja, é consenso que feijão não é feijoada.
A maconha, nome popular da planta cannabis sativa, possui mais do que 400 componentes, sendo que vários destes são denominados ‘canabinóides’ (substâncias que atuam nos receptores com este mesmo nome). Na primeira metade dos anos 60 foram determinadas as estruturas químicas dos principais canabinóides, incluindo o ∆9-tetrahidrocanabinol (∆9-THC), componente da droga responsável pelos efeitos psicoativos da planta. Atualmente são conhecidos cerca de 80 canabinóides, com outros efeitos, muitos deles com potencial terapêutico. Como exemplo, o canabidiol (CBD), um canabinóide que chega a constituir até 40% do extrato da maconha, apresenta vários efeitos opostos aos do ∆9-THC, tais como efeito ansiolítico e antipsicótico.

Ao contrário do ∆9-THC, o uso do CBD isoladamente não apresenta os efeitos típicos do uso da maconha, sendo que grupos brasileiros estão na vanguarda nas pesquisas sobre o potencial terapêutico desta substância. Atualmente estudos do CBD na doença de Parkinson, esquizofrenia, fobia social, estresse pós-traumático, tabagismo, epilepsia, depressão, entre outras condições estão sendo conduzidos no país. Pode-se assim dizer que os canabinóides são componentes da maconha, mas que ambos não são sinônimos. Ou seja, canabinóide não é maconha.

No começo do século passado, quando os princípios ativos da droga não haviam sido isolados, estratos de maconha foram comercializados por grandes laboratórios farmacêuticos para diversas indicações. Entretanto, as evidências disponíveis não justificam que fumar maconha possa servir para fins terapêuticos. Os estratos de maconha apresentam ampla variabilidade em sua composição, estabilidade e potência. Assim, seguindo os mesmos princípios da evolução da farmacoterapia, tem-se buscado o desenvolvimento de compostos canabinóides mais puros que permitam a dosagem mais precisa e aí reduzindo o risco de significativos efeitos colaterais indesejáveis.

A maconha é a droga ilícita mais utilizada na maioria dos países, sendo que dependendo da dose, o seu uso pode levar alguns indivíduos a desenvolverem sintomas psiquiátricos e alterações cognitivas transitórias. Embora controverso, o uso recreativo crônico da maconha, dependendo da dose, freqüência e precocidade do início, pode induzir alterações cognitivas duradouras e facilitar quadros psiquiátricos em usuários vulneráveis. Estudos longitudinais prospectivos realizados na Suécia, Inglaterra e Nova Zelândia sugerem uma associação entre o uso crônico de maconha e maior risco para o desenvolvimento de esquizofrenia. Hoje a síndrome de abstinência da maconha é uma condição reconhecida e sabe-se que alguns usuários podem vir a desenvolver dependência. As intervenções terapêuticas para esta condição – farmacológicas e não-farmacológicas – atualmente disponíveis demonstraram eficácia apenas modesta. Modernos estudos de imagem cerebral apontam para alterações no funcionamento cerebral com o uso crônico e recorrente da droga. Igualmente, complicações clínicas como câncer, problemas respiratórios, imunológicos entre outras também foram associados ao uso da maconha inalada.

Dessa forma, a afirmação de que atualmente existe conhecimento científico suficiente para a liberalização do uso medicinal ou recreativo da maconha no Brasil não é de fato verdadeira. Além disso, confunde e desinforma, pois considera a maconha e os canabinóides como equivalentes.

Todo debate científico a respeito da legalização da maconha, deveria necessariamente estar respaldado em dados empíricos baseado em experimentos clínicos e em estudos epidemiológicos. Quando a questão é abordada de forma politizada, com viés ideológico, ou pior ainda, levando-se fatos particulares de foro individual ou da lei para o debate científico, é no mínimo desnecessária e gera ainda mais confusão.

Os canabinóides e os medicamentos que atuem no sistema canabinóide cerebral têm mostrado possuir fantástico potencial e acredita-se que poderão beneficiar milhões de pessoas no mundo todo. O melhor entendimento dos mecanismos de ação dessas substâncias com a conseqüente legalização dos canabinóides poderá ser uma espetacular conquista científica, levando a significativa redução de sofrimento e melhor qualidade de vida a portadores de diversas doenças e transtornos. Por outro lado, o debate da legalização da maconha para fins recreativos só deveria ocorrer após a sociedade e a comunidade cientistas estar bem esclarecida das potenciais complicações da droga ou de sua eventual ausência de riscos. Porém, para isto é fundamental separar o joio do trigo; o feijão da feijoada ou – no caso – os canabinóides da maconha.

 

José Alexandre de Souza Crippa

Professor Doutor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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