Como encontrar sentido em 2026: uma conversa com o Dr. Elson Asevedo

2 de janeiro de 202620min68
download

*Por Adriana Moraes

“Pratique gentileza consigo mesmo. Em um mundo que exige produtividade permanente, que celebra a performance e pouco tolera pausas, ser gentil tornou-se um ato de coragem” 
Dr. Elson Asevedo

O início de um novo ano costuma trazer metas, expectativas e a sensação de que precisamos recomeçar da melhor forma possível. Mas 2026 chega também com um convite importante: olhar para dentro com mais honestidade, respeito e gentileza.

Para aprofundar esse tema, conversamos com o psiquiatra **Dr. Elson Asevedo, que nos ajuda a entender por que tantas pessoas começam o ano exaustas, ansiosas ou frustradas, e quais caminhos reais podemos seguir para construir um ano mais leve, consciente e com propósito. Ele fala sobre a busca por sentido da vida e aborda diferentes transtornos de saúde mental, destacando como a ansiedade e a depressão podem se intensificar nesse período e como o cuidado emocional, a autoconsciência e as relações saudáveis são fundamentais ao longo do ano.

Mais do que uma entrevista, este é um convite para iniciar 2026 com lucidez, presença e cuidado.

1. O Janeiro Branco nos convida a olhar para nossas emoções com mais atenção. Na prática, quais sinais mostram que alguém precisa buscar ajuda especializada e não apenas “descansar” ou “desacelerar”?

O Janeiro Branco é um convite para desacelerarmos por dentro. Vivemos numa cultura que normaliza a exaustão, trabalhar cansado, dormir pouco e seguir em frente virou padrão. Mas há uma diferença muito clara entre cansaço comum e sofrimento emocional que exige cuidado profissional.

O critério mais importante é o prejuízo funcional. Quando a tristeza, a ansiedade ou a irritabilidade começam a afetar, de maneira persistente, o trabalho, os estudos, as relações ou o autocuidado, já não estamos falando de estresse passageiro.

Alguns sinais costumam aparecer:
• Perda de vitalidade e apatia: não é tristeza comum, é uma sensação de desligamento, como se tudo perdesse cor.
• Alterações marcantes no sono ou apetite: tanto para mais quanto para menos.
• Irritabilidade e pavio curto: muitas vezes, a depressão se apresenta assim.
• Pensamentos negativos recorrentes: especialmente os de desesperança.
• Sintomas físicos sem explicação médica: dores, tensão, desconfortos que “não passam”.

Se essas mudanças persistem mesmo após descanso, procurar ajuda é um ato de responsabilidade. Quando a luz do painel acende, ignorar não resolve, e cuidar não é sinal de fraqueza, é lucidez.

2. Muitas pessoas começam o ano com metas rígidas e acabam vivendo ansiedade e frustração. Do ponto de vista da saúde mental, por que isso acontece e quais estratégias o senhor recomenda para lidar com essa cobrança interna?
O início do ano costuma vir carregado de expectativas irreais. As pessoas projetam grandes transformações, “vou mudar tudo”, “vou ser outra pessoa”, e criam metas tão rígidas que qualquer deslize se transforma em fonte de ansiedade.

Do ponto de vista psicológico, isso acontece porque metas absolutas ativam um funcionamento de tudo ou nada. Basta perder um dia de treino, fugir da dieta ou procrastinar um pouco para o cérebro interpretar: “fracassei”. Esse padrão alimenta a culpa, aumenta o estresse e, muitas vezes, leva ao abandono completo das metas.

Além disso, vivemos em uma cultura que supervaloriza performance e autocontrole. O ideal de produtividade permanente cria a sensação de que “não estamos fazendo o suficiente”, mesmo quando estamos exaustos. É um cenário perfeito para ansiedade e frustração.

Algumas estratégias ajudam a quebrar esse ciclo:
• Priorize o processo, não o resultado: metas como “ir à academia três vezes por semana” são muito mais saudáveis do que “perder dez quilos”. O processo está sob nosso controle, o resultado, não.
• Faça mudanças pequenas e consistentes: o princípio do 1%, melhorar um pouco a cada dia, é mais eficaz do que grandes promessas que não se sustentam.
• Espere falhar: a falha não é exceção, é parte do caminho. Quando ela chega, o importante é retomar o curso, não se punir.
• Cultive autocompaixão: o diálogo interno precisa ser semelhante ao que oferecemos a alguém que amamos. A autocrítica severa paralisa, a autocompaixão mobiliza.
• Reduza gatilhos de comparação: redes sociais são vitrines editadas. Comparar a própria vida com o recorte dos outros é receita para frustração.

Metas não são contratos de perfeição, são direções. O objetivo não é se tornar outra pessoa, mas construir, aos poucos, uma vida mais alinhada com quem você deseja ser.

3. Quais são os transtornos de saúde mental que mais se intensificam neste período de início de ano, como depressão, ansiedade ou TEPT, e por que isso acontece?
O início do ano é um período paradoxal: ao mesmo tempo em que simboliza renovação, também funciona como um amplificador de vulnerabilidades emocionais. Na prática clínica, os transtornos que mais costumam se intensificar nessa época são ansiedade e depressão, com possíveis repercussões em quadros de estresse pós-traumático para pessoas vulneráveis.

Por que a ansiedade piora?
O final do ano costuma trazer uma combinação explosiva: quebra de rotina, privação de sono, excesso de compromissos sociais, estresse financeiro e maior consumo de álcool. Quando atravessamos esse período já sob pressão, o cérebro entra em janeiro desregulado, e o retorno abrupto à rotina pode ser percebido como uma ameaça. Somam-se a isso as famosas resoluções de ano novo. A cobrança interna por “começar perfeito”, “não errar” e “ser diferente” alimenta um estado de hipervigilância: preocupações constantes, tensão muscular, irritabilidade, dificuldade para dormir e até crises de pânico.

Por que a depressão se intensifica?
A depressão costuma se agravar porque o final do ano expõe contrastes dolorosos: a obrigação social da felicidade, a idealização de famílias perfeitas e a revisão de um ano que talvez tenha sido marcado por perdas. Muita gente vive uma espécie de “solidão acompanhada”: sente-se profundamente desconectada mesmo rodeada de pessoas. Quando chega janeiro, com sua ideia de recomeço, isso pode piorar. Enquanto todos parecem cheios de planos, quem está deprimido sente a incapacidade de iniciar algo novo, o que aprofunda sentimentos de inadequação, vazio e desesperança.

E o TEPT?
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) não é sazonal, mas algumas pessoas vivenciam gatilhos fortes nessa época. Fogos de artifício, reuniões familiares, datas de perdas ou memórias traumáticas podem reativar sintomas como hiperalerta, flashbacks e insônia. Para sobreviventes de violência, acidentes ou conflitos familiares, o período pode ser especialmente sensível.

Por que tudo isso converge em janeiro?
Porque o início do ano funciona, na prática, como um “teste de estresse emocional”. Ele expõe nossos limites, mexe com nossa autoestima e reacende expectativas internas e externas. É um território fértil tanto para o autocuidado quanto para o adoecimento, por isso exige atenção.

A boa notícia é que janeiro também é um ponto de virada: reconhecer esses padrões permite buscar apoio, reorganizar rotinas e adotar práticas de autocuidado antes que o sofrimento se torne incapacitante.

4. Em um mundo acelerado, estamos cada vez mais desconectados das próprias emoções. Como cultivar autoconsciência emocional e fortalecer relações saudáveis pode ajudar a prevenir adoecimento mental ao longo do ano?
Vivemos em uma época em que estamos constantemente voltados para fora, para as demandas, para os estímulos, para a velocidade das informações. O resultado é que muitas pessoas passam o dia inteiro atendendo ao mundo e muito pouco atendendo a si mesmas. Essa desconexão emocional é um dos fatores que mais fragilizam nossa saúde mental.

As emoções são um sistema de orientação: elas nos avisam quando algo precisa ser ajustado, protegido ou transformado. Quando ignoramos esses sinais, acumulamos tensão, irritabilidade, ansiedade ou uma exaustão silenciosa que, com o tempo, se torna adoecimento.

Cultivar autoconsciência emocional é, portanto, uma prática de saúde. Ela não exige longas técnicas, mas pequenas pausas estruturadas no cotidiano:

• Check-ins emocionais curtos: perguntar a si mesmo, algumas vezes ao dia, “o que estou sentindo agora?”. Apenas nomear a emoção já diminui sua intensidade e aumenta a clareza.
• Atenção plena (mindfulness): treina a capacidade de observar emoções sem ser arrastado por elas, uma habilidade essencial em um mundo hiperestimulante.
• Escrita emocional: registrar pensamentos e sensações organiza o caos interno e revela padrões que passam despercebidos.

Paralelamente, relações saudáveis funcionam como nosso sistema imunológico psicológico. A ciência é consistente: vínculo de qualidade é um dos fatores de proteção mais fortes contra transtornos mentais. Não se trata de ter muitos amigos, mas de ter relações que ofereçam confiança, escuta e reciprocidade.

Para fortalecê-las:
• Pratique presença real: ouvir com atenção é um dos maiores presentes que podemos oferecer.
• Seja vulnerável com segurança: falar sobre sentimentos cria conexão, e conexão reduz sofrimento.
• Invista tempo intencionalmente: relações não florescem no piloto automático, precisam de continuidade e cuidado.

Ao longo do ano, a soma entre autoconsciência e relações nutridoras cria um ciclo virtuoso: quanto mais me entendo, melhor me comunico; quanto melhor me comunico, mais saudáveis se tornam minhas relações; quanto mais apoio tenho, mais resiliente me torno diante das adversidades. Essa integração, o cuidado com o mundo interno e com o mundo relacional, é uma das formas mais sólidas de prevenção em saúde mental na vida adulta.

5. Muitas pessoas iniciam o ano sentindo um vazio ou falta de propósito. Como a busca pelo sentido da vida influencia a saúde mental, e de que forma alguém pode começar a construir esse significado de maneira prática e saudável?
O sentimento de vazio que muitas pessoas experimentam no início do ano não é falta de força, é falta de sentido. Viktor Frankl descreveu isso como “vazio existencial”: quando perdemos a conexão com aquilo que dá direção à nossa vida, tudo fica sem cor, sem energia e sem perspectiva. O propósito não elimina o sofrimento, mas o torna suportável e, muitas vezes, transformador.

A boa notícia é que o propósito não é algo que “aparece” na nossa frente. Ele é construído. E essa construção acontece em pequenas escolhas cotidianas, não em epifanias grandiosas.

Comece olhando para fora, não para dentro: Frankl dizia que o sentido da vida não se encontra no isolamento, mas no encontro, com uma causa, com o trabalho, com o outro. Pergunte-se: “Onde posso ser útil hoje?” Ajudar alguém, participar de uma causa, ensinar algo, cuidar de quem precisa. Atos assim diminuem o vazio e ampliam o sentido.

Clarifique os seus valores: o que realmente importa para você? Honestidade, criatividade, justiça, cuidado, família, liberdade? Propósito é, em grande parte, viver de acordo com esses valores, mesmo em pequenas doses. Se compaixão é um valor, qual é o gesto mínimo possível de compaixão que você pode praticar hoje?

Encontre significado no trabalho ou fora dele: nem todo mundo terá uma profissão que simboliza sua grande missão de vida. Tudo bem. Mas sempre é possível conectar o trabalho diário a um impacto maior: “Quem é beneficiado pelo que faço?” E, quando isso não é claro, hobbies, projetos pessoais e atividades comunitárias podem cumprir esse papel de forma poderosa.

Priorize vínculos que nutrem: pertencimento é um dos pilares do sentido. Relações de confiança, cuidado e reciprocidade ampliam nosso sentimento de valor e direção. Propósito raramente nasce na solidão; quase sempre nasce no encontro.

Assuma sua parte na própria vida: em vez de perguntar “o que eu espero da vida?”, Frankl sugere uma pergunta mais madura: “O que a vida espera de mim agora?” Essa pequena mudança nos tira da passividade e nos coloca no papel de agentes do próprio destino.

O que fazer na prática?
Comece pequeno. Escolha uma ação por dia que se conecte a:
• um valor seu,
• uma pessoa importante, ou
• uma causa que faça sentido.

O propósito não surge de grandes decisões, surge de pequenas coerências acumuladas. É assim que o vazio vai, pouco a pouco, dando lugar à vitalidade.

6. Dr. Elson, neste início de ano, que mensagem o senhor gostaria de deixar para as pessoas que acompanham seu trabalho, especialmente para aquelas que desejam começar 2026 com mais equilíbrio emocional, propósito e cuidado com a própria saúde mental?
Minha mensagem para quem deseja começar 2026 com mais equilíbrio emocional é simples e profundamente necessária: pratique gentileza consigo mesmo. Em um mundo que exige produtividade permanente, que celebra a performance e pouco tolera pausas, ser gentil tornou-se um ato de coragem.

Equilíbrio não significa ausência de problemas, significa ter espaço interno para lidar com eles sem se quebrar por dentro. E isso nasce de escolhas pequenas, sustentáveis e realistas: dormir melhor, desacelerar quando possível, mover o corpo com regularidade, cultivar relações seguras e reservar alguns minutos por dia para checar como você realmente está.

Também convido você a abandonar a ideia de que precisa dar conta de tudo. Ninguém precisa, e ninguém dá. A força verdadeira aparece quando reconhecemos nossos limites e pedimos ajuda quando necessário. Procurar um profissional não é sinal de fraqueza, é maturidade emocional.

Quanto ao propósito, ele raramente surge em grandes transformações. Ele aparece nos pequenos atos, na presença com quem você ama, no cuidado com quem precisa, na coragem de ser um pouco melhor hoje do que ontem. O sentido não é um lugar a que chegamos, é uma direção para onde caminhamos diariamente.

E, por fim, talvez o mais importante: você não está sozinho. Todo ser humano carrega dores, dúvidas, inseguranças e momentos de escuridão. O sofrimento não é falha, é parte da condição humana. Falar sobre ele, pedir ajuda e se permitir ser cuidado são gestos que salvam vidas.

Que 2026 seja um ano menos guiado pela cobrança e mais orientado pelo cuidado. Menos sobre perfeição e mais sobre presença. Menos sobre “dar conta” e mais sobre viver com sentido, com lucidez e com gentileza.

Nossa gratidão por uma contribuição sensível e esclarecedora  
Dr. Elson, agradecemos sua generosidade e a clareza ao abordar temas tão fundamentais neste início de ano.

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

** Dr. Elson Asevedo – Psiquiatra da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Diretor do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Vila Mariana (CAISM).

Relacionados


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



Newsletter


    Skip to content