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O Psiquiatra Dr. Claudio Jerônimo, falou sobre o tratamento na Unidade Recomeço Helvétia

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:52

*Por Adriana Moraes

“Oferecemos oportunidade de tratamento, internação e se o dependente quiser pode se internar e tem onde morar” Dr. Claudio Jerônimo

Prestes a ser inaugurada oficialmente, a Unidade Recomeço Helvétia, situada na Rua Helvétia, nº 55 - Campos Elíseos/São Paulo, é mais uma grande conquista do Programa Recomeço do Governo do Estado de São Paulo, coordenado pelo médico Dr. Ronaldo Laranjeira, referência na área da dependência química.

Gerenciada pela SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), sob a direção do psiquiatra Dr. Claudio Jerônimo, a Unidade foi criada especialmente para atender os dependentes químicos nas redondezas da cracolândia, com o objetivo principal de tratá-los e reinseri-los socialmente.

 

Missão

A missão do Recomeço Helvétia é acolher, dar suporte psicossocial, prestar assistência em saúde no período de crise e contribuir para reinserção social, visando à recuperação dos pacientes com problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas em alta vulnerabilidade social, fundamentando-se nas evidências científicas e no profundo respeito ao ser humano e nas particularidades dos indivíduos. [1]

Tive a satisfação de conhecer a Unidade Recomeço Helvétia e de conversar com o Diretor Dr. Claudio Jerônimo que gentilmente nos informou: “Oferecemos oportunidade de tratamento, internação e se o dependente quiser pode se internar e tem onde morar”. 

Para permanecer na Unidade é necessário participar das atividades do CRATOD (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas) e aceitar a realização diária de testagem de drogas (urina). O prédio do Helvétia possui 11 andares divididos entre:

- Centro de Convivência;

- Recomeço Família;

- Enfermaria de Desintoxicação;

- Moradia Assistida.

 

Acompanhe a entrevista:

Qual é o primeiro passo para atrair o dependente químico ao Centro de Convivência?

Na Unidade Recomeço Helvétia temos uma linha de cuidado que começa lá na rua com os conselheiros que lidam e abordam os usuários que estão aqui na região da cracolândia, convidando eles para que venham ao serviço de saúde. Se pensarmos o cuidado como um processo na linha de cuidado, o primeiro passo consiste em ir à rua e convidar as pessoas para vir aqui ao centro de saúde, porque espontaneamente, elas não costumam procurar o serviço de saúde. Não adianta você abrir um Centro de Convivência e ficar esperando os usuários aqui. É preciso que os conselheiros os estimulem a vir, então eles realizam esse trabalho, convidam, atraem, fazem vínculos com essas pessoas e através do vínculo, eles vão atraindo os dependentes para o Centro de Convivência.

 

Quais são as atividades do Centro de Convivência?

As atividades mais básicas do Centro de Convivência são o banho e o corte de cabelo. Oferecemos kits para o banho, roupa, chinelo, calçado. Passamos algumas orientações de educação e saúde, entre essas, a higiene bucal, ensinando como escovar corretamente os dentes, num sentido preventivo da saúde. Essas atividades não são simplesmente atividades, porque no momento em que estão realizando, eles estão recebendo uma intervenção, um acolhimento. Essa intervenção consiste em ouvi-los, acolhê-los e incentivá-los a pensar no processo terapêutico. Depois oferecemos atividades um pouco mais estruturadas como academia de ginástica, alguns grupos, cuidados com os pés, culinária, bateria, passeios que chamamos de ‘bate pernas’, a título de exemplo, cito saída para o museu, visita ao zoológico, sempre na companhia de psicólogos e conselheiros.

Porque se quiséssemos, nos poderíamos oferecer todos esses cuidados com um barbeiro, um baterista, com um artista, mas quem oferece essas atividades são profissionais que tem sim uma formação em arteterapia, mas também tem uma formação em saúde e em dependência química. No tempo em que estão fazendo isso, nós também estamos realizando uma intervenção em saúde mental, motivando-os para seguir no processo terapêutico. Portanto, não é simplesmente oferecer o banho, ou levar para passear, embora se fizéssemos apenas isso, já seria bom, porque enquanto eles estão fazendo isso, não estão usando drogas.

 

Quantos usuários frequentam por mês o Centro de Convivência?

Temos por mês mais ou menos 3500 pessoas que frequentam o Centro de Convivência. Realizando 02 ou mais atividades todos os meses. Por exemplo: tomar o banho e frequentar a academia de ginástica, ou academia de ginástica e cozinha experimental.

 
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Dr. Claudio comente sobre a Enfermaria de Desintoxicação

A desintoxicação é o segundo passo do nosso processo na linha de cuidado. Aqui ele tem médico vinte quatros horas, é uma enfermaria de curta permanência para estabilização da crise e desintoxicação. A unidade oferece 12 leitos para homens e 09 para mulheres. Aqueles que desejarem avançar nessa linha de cuidado podem ser internados e receber uma desintoxicação. Já tivemos paciente que saiu daqui do Centro de Convivência e foi para o CRATOD pedir ajuda e em seguida voltou para a enfermaria de desintoxicação.

Durante o tempo que permanecem no Centro de Convivência, estão em um estágio motivacional ainda muito inicial, mas enquanto eles estão realizando atividades no centro, por isso eu digo que não é simplesmente uma atividade, é algo feito por pessoas especializadas, eles estão sendo motivados a ir para frente no processo de tratamento de recuperação. Aqui não é o fim e dizemos para o dependente "se você quiser dar mais um passo, nós temos para lhe oferecer".

Tem alguns que dizem “não é o momento”. Outros já falam “quero ser internado e gostaria de ser internado aqui, já conheço a equipe e não quero ir para outro local”. Ele estava na rua, o conselheiro buscou, o trouxe para cá, conheceu a equipe, aqui se motivou e ele diz “agora quero ser internado, porque quero parar, acho que chegou o momento, mas sozinho não consigo”. Então, nesse caso o encaminhamos para o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas e após avaliação médica ele retornará para a enfermaria do Helvétia.

 

Quando o dependente deve ir para a Moradia Assistida?

Chega um momento que o dependente diz “agora parei de usar droga, mas para eu me manter abstinente eu preciso de um suporte social, para eu poder me compor socialmente”, porque se o dependente voltar para a rua ou albergue, as chances de recair são grandes. A maioria dos usuários da região está na rua sem moradia, distante da família, então oferecemos para ele a Moradia Assistida Monitora. Temos 36 vagas na moradia, onde o dependente em recuperação pode ficar por até 06 meses ou mais, dependendo da necessidade dele.

Cito a história de 02 pacientes que estavam internados há cerca de 20 dias aqui na enfermaria e eles pediram para ficar na Moradia Assistida que estava para ser inaugurada. Assim sendo, eles se vincularam ao CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) do CRATOD e foram os primeiros moradores. 

Essa é a linha de cuidado que começa lá na rua, quando o usuário nem queria saber de tratamento, precisou de alguém para trazê-lo até a Unidade, a equipe ofereceu uma atividade, estimulando-o para fazer o tratamento. Oferecemos oportunidade de tratamento, internação e se ele quiser pode se internar e tem onde morar. Temos essa linha de cuidado que vai desde aquele que por enquanto não quer parar de usar drogas até que resolve parar e está querendo um lugar para morar.

O projeto terapêutico principal do Centro de Convivência é motivá-los para avançar no processo terapêutico, ocupando-os o maior tempo possível aqui dentro, porque ele estando conosco não vai usar droga. Neste lugar não pode entrar com drogas e hoje temos o respeito deles, se perceberem que alguém vai entrar e fazer algo errado, os outros avisam e pedem, por favor, para não fazerem isso, aqui é um local deles, um local limpo, onde todos são tratados com respeitos.

 

Qual a importância do SAU (Serviço de Atendimento ao Usuário)?

Na Unidade Recomeço Helvétia, os usuários não precisam brigar, podem fazer uma reclamação por escrito, eles aprenderam que se fizerem essa reivindicação no SAU(Serviço de Atendimento ao Usuário), eles serão atendidos. Vamos olhar para eles com respeito e daremos uma resposta. São reclamações interessantes, por exemplo, os pioneiros que chegam à cozinha experimental, não estão dando chance para os novatos, enfim, através do SAU eles têm acesso a um canal legal onde serão tratados como cidadãos.

 

Agradeço ao Diretor Dr. Claudio Jerônimo pelas informações!

 

Finalizo a matéria com a cozinha experimental da Unidade Recomeço Helvétia com os dependentes em recuperação aprendendo a fazer bolo e com a frase: “Não se pode mudar o passado, mas você pode investir forte e intensamente em seu presente e mudar seu futuro”. [2]

           
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*Adriana Moraes - Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) - Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:

[1] http://urh.spdmafiliadas.org.br/

[2] Mente livre e emoção saudável/ Augusto Cury; Rio de Janeiro; Sextante, 2013.

 
 
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RELATÓRIO FINAL - II LENAD

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Resultados do II LENAD

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