Desfecho trágico contra a própria vida: coragem ou covardia?

17 de maio de 20238min3694
SITE UNIAD

*Por Adriana Moraes

Quando lidamos com assuntos relacionados sobre saúde mental, ouvimos inúmeros comentários maldosos, principalmente sobre depressão e suicídio, por exemplo: “fulano se matou, foi um ato de coragem ou covardia?”, “tentou suicídio sem sucesso”, sem falar dos julgamentos, “alguns lutando pela vida e outros interrompendo sua existência“, são falas preconceituosas e incorretas.

Fulano se matou, foi um ato de coragem ou covardia?

Desespero extremo seria o termo mais apropriado. Na verdade, o que leva a pessoa a interromper a própria vida é uma dor psíquica insuportável. Quem tenta suicídio está passando por um intenso sofrimento psicológico e se concretizado, o suicídio não deve ser enaltecido, não deve ser tomado como um ato de coragem ou julgado como um ato de covardia.

Julgamentos entre profissionais de saúde

Tantas pessoas lutando para viver em hospitais e outros tentando tirar a vida e ocupando o espaço de quem realmente necessita de atendimento de emergência, muitos profissionais se revoltam com esses casos.

A sensibilização de toda a equipe de profissionais que lidam diretamente com pessoas que tentaram tirar suas vidas ou que chegaram a tirá-la é fundamental. Não é incomum que muitos desses profissionais, em algumas situações, cheguem a destratar essas pessoas. Atender um paciente potencialmente suicida é uma tarefa desafiadora e estressante, muitas vezes, esses profissionais se incomodam de estar atendendo uma ocorrência de tentativa de suicídio ou de suicídio consumado, pensamentos e, muitas vezes, até verbalizações como “podia estar salvando uma vida, mas estou aqui perdendo meu tempo com quem quis tirá-la” não são raros.

Esse tipo de tratamento definitivamente não é adequado para essas situações, por colocarem ou o próprio sujeito que tentou se matar, ou familiares de quem se matou em situações constrangedoras. Uma pessoa que pensa em tirar a própria vida necessita de ajuda, é necessário, mais acolhimento e menos julgamentos morais.

Tentou suicídio sem sucesso

“O jovem que cometeu suicídio havia tentado várias vezes matar-se sem sucesso”. Não se deve deixar a palavra suicídio parecer sinônimo de êxito, de solução, o suicídio é sempre uma tragédia. Consultando o Dicionário Online de Português a palavra sucesso diz respeito a algo com consequência positiva de alguma coisa que expressa o êxito de quem a fez; acontecimento favorável; resultado feliz; algo ou alguém que obteve êxito. Toda morte por suicídio é sempre um desfecho trágico, não existe sucesso.

Sabemos o que acontece com quem faz isso

Talvez o maior de todos os absurdos, seja essa frase: “sabemos o que acontece com quem faz isso”, não sabemos de nada! Imagina um familiar ouvindo uma frase dessas, além de lidar com a incompreensão, com a dor, ainda tem que enfrentar preconceitos e julgamentos.

Lamentar a perda e julgar o que irá acontecer com o suicida após sua morte só irá aumentar o sofrimento de quem perdeu seu ente querido. O suicídio de alguém próximo tende a ser vivido como traumático, causa grande sofrimento e exige dos familiares e amigos muita energia psíquica para elaborar o luto. Após a perda de um familiar por suicídio, os familiares necessitam de suporte especializado. Quem somos nós para julgar os motivos que levaram alguém a desistir de viver?

Saúde mental, preconceito e prevenção ao suicídio: vamos conversar?

Pensar em saúde mental não é apenas considerar a ausência de transtorno, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade.

O desespero é tanto que o suicídio aparece como a única saída para as pessoas que se deparam com problemas e sofrimentos que para elas naquele momento não vêem saída. Não é incomum que aqueles que atentam contra a própria vida não estejam buscando propriamente a morte, muitas vezes, o que desejam de fato é interromper a dor e o sofrimento profundo, ou outras situações insustentáveis.

Muitas pessoas com ideação suicida deixam de buscar ajuda por causa do preconceito e estigma, medo de serem julgadas, por esse motivo não realizam o tratamento. O fim do preconceito com doenças mentais, como ansiedade e depressão, é fundamental para a prevenção ao suicídio.

Por muito tempo, a maioria das pessoas evitava falar sobre suicídio, existia o receio de estimular o ato em pessoas mais fragilizadas e com comportamento suicida (pensamentos, planos e tentativa de suicídio).

Em 2014 com criação da Campanha Setembro Amarelo, isso mudou e o tema passou a ser discutido inclusive pela mídia, que tem a possibilidade de mostrar, os avanços no tratamento dos transtornos mentais, informações de onde conseguir ajuda, bem como exemplos de superação, pessoas que superaram o desespero e com o apoio emocional, conseguiram vencer as crises e seguir com suas vidas.

Referências:

[1] O Suicídio e os Desafios para a Psicologia / Conselho Federal de Psicologia. – Brasília: CFP, 2013. 152p.
[2] https://www.setembroamarelo.com/_files/ugd/e0f082_a44f70d6665647ea9ecf0631cc82b142.pdf

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Saúde Mental e Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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