Carreiras de alta performance e risco de suicídio

17 de outubro de 20238min2786

* Adriana Moraes

O suicídio é uma questão séria e complexa que afeta pessoas de todas as esferas da vida, incluindo aqueles que desfrutam de posições de alta performance e sucesso, como médicos, dentistas e jogadores profissionais. Embora essas pessoas possam ser admiradas e bem-sucedidas aos olhos do público, não estão isentas das lutas emocionais e mentais que podem levar ao suicídio.

A busca pela excelência pode levar a expectativas excessivas de desempenho contínuo, quando essas expectativas não são atendidas, pode surgir um sentimento de fracasso e desesperança. A falta de perspectivas positivas para o futuro pode aumentar o risco de um profissional desenvolver pensamentos suicidas, mesmo para aqueles que alcançaram o sucesso.

É importante reconhecer que o sucesso externo nem sempre reflete o bem-estar interno. Aqueles que alcançaram o sucesso não estão imunes a problemas de saúde mental.

Médicos anestesistas

Os médicos muitas vezes enfrentam pressões significativas em suas carreiras devido à responsabilidade de cuidar da saúde de seus pacientes. Os médicos anestesistas frequentemente enfrentam situações de alto estresse, como a necessidade de tomar decisões críticas rapidamente e lidar com emergências médicas.

Essa profissão também apresenta riscos específicos, devido ao fácil acesso que esses profissionais têm a medicamentos e substâncias que causam dependência química e podem ser letais.

Plantões irregulares, longas horas de trabalho e a falta de um horário fixo podem prejudicar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, levando à exaustão e ao isolamento social. A profissão médica, em geral, muitas vezes impõe altas expectativas de desempenho e perfeição. O medo de cometer erros graves pode aumentar a pressão sobre os médicos anestesistas.

Esses profissionais desempenham um papel crítico na área da saúde, administrando anestesia durante procedimentos cirúrgicos e cuidando da segurança dos pacientes. No entanto, as pressões e os desafios associados a essa profissão podem levar ao esgotamento e risco de problemas de saúde mental, incluindo o suicídio.

Dentistas

O risco de suicídio entre dentistas é uma preocupação séria, embora muitas vezes seja subestimado. Nos últimos anos, os profissionais de odontologia têm enfrentado muitos desafios para encontrar satisfação em seu ambiente de trabalho. A desvalorização da profissão, a complexidade de administrar uma clínica de forma independente, a busca incessante por atualizações, a carga horária extenuante e as dificuldades nas interações com os pacientes têm gerado frustrações e infelizmente, levado alguns dentistas a tomarem decisões extremas, como acabar com a sua vida.

Os dentistas frequentemente enfrentam pressão profissional devido à alta expectativa de resultados, tratamentos complexos e a necessidade de manter um alto padrão de atendimento. Isso pode criar um ambiente de trabalho estressante, o que pode afetar seu equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, levando a exaustão física e emocional.

Jogadores profissionais

Os jogadores profissionais, por outro lado, enfrentam uma alta competição e a constante necessidade de desempenho excepcional. A vida de um atleta profissional pode envolver muitas viagens e separações de família e amigos, contribuindo para sentimentos de solidão.

A pressão dos fãs, mídia e equipes pode ser esmagadora e muitos não aceitam a hora de parar, a transição para uma nova carreira após a aposentadoria do esporte pode ser um momento de grande incerteza e ansiedade.

O sucesso profissional e o reconhecimento público não garantem uma boa saúde mental. Muitos casos de suicídio envolvem indivíduos que aparentemente tinham tudo, embora muitos admiram a vida glamorosa dos atletas e seu sucesso, a realidade por trás das cortinas pode ser extremamente desafiadora.

No final de setembro, a mídia informou a trágica morte da ex-jogadora de vôlei Walewska, que ocorreu após uma queda do 17º andar do edifício onde ela vivia com seu marido, em São Paulo. Através da autópsia psicológica (um tipo de avaliação psicológica realizada retrospectivamente através de uma investigação imparcial, que objetiva compreender os aspectos psicológicos de uma determinada morte), familiares e amigos próximos não conseguiram identificar os indicadores de risco associados ao suicídio ou à depressão, exceto pelo relato do marido da ex-atleta, que segundo a mídia, mencionou que ela estava em tratamento terapêutico para tratar a depressão.

Estigma

O estigma em relação a problemas de saúde mental é um desafio comum. Pessoas em posições privilegiadas podem temer que procurar ajuda seja percebido como fraqueza ou que possa prejudicar suas carreiras. Muitos médicos, dentistas e jogadores podem se sentir relutantes em buscar apoio devido à natureza competitiva e demandante de suas profissões.

É importante lembrar que o suicídio é prevenível, e o apoio adequado, a conscientização e a compreensão das questões de saúde mental são essenciais para proteger a vida de pessoas em todas as esferas da sociedade, incluindo aqueles que alcançaram o sucesso em suas carreiras de alta performance. Todos devem ter acesso a profissionais de saúde especializados em suas necessidades específicas.

Dia a dia de quem perdeu alguém para o suicídio

O suicídio, em geral, não é visto como uma forma aceitável de se morrer. Ás vezes esconde-se o fato de a morte ter sido por suicídio. Para cada suicídio, estima-se que entre 5 a 10 pessoas sejam profundamente afetadas. Para algumas pessoas os sentimentos dolorosos desencadeados pela morte poderão agravar os transtornos mentais preexistentes, para outras, a dor passará a ser aplacada pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

O dia a dia de quem perde um ente querido por suicídio costuma ser de silêncio e de isolamento.

Fonte: Livro Crise Suicida – Avaliação e Manejo: Neury José Botega – 2015

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Saúde Mental e Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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