Por que devemos ter cuidado ao falar de suicídio nas redes sociais?

10 de junho de 20248min93
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*Dr. Antônio Geraldo

As redes sociais hoje servem como um espaço para compartilhar momentos da nossa vida, nossas experiências, pensamentos e emoções. Infelizmente, muitas pessoas fazem mau uso dessas plataformas, principalmente quando se trata de temas delicados como compartilhar detalhes sobre tentativas de suicídio e métodos usados. Embora possa parecer uma forma de buscar apoio e compreensão de terceiros, esse tipo de relato pode ser perigoso, principalmente para aqueles que estão vulneráveis. 

Um dos principais perigos é o potencial efeito de contágio ou “efeito Werther”, usado na literatura médica em alusão ao romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther” do escritor alemão Goethe, que conta a história de um jovem que tirou a própria vida após vivenciar uma paixão não correspondida. A época, centenas de jovens cometeram suicídio, alguns deles estavam usando roupas parecidas com o personagem principal, utilizaram o mesmo método que ele ou foi encontrado o livro no local da morte.

Quando uma pessoa compartilha detalhes de uma tentativa de suicídio, dos métodos que usou ou planeja usar para milhares de pessoas, isso pode ser entendido como uma validação ou até mesmo uma sugestão para outros que estão passando por momentos difíceis. É como se estivessem enviando uma mensagem de que o suicídio é uma opção viável e até mesmo aceitável. Principalmente quando é uma pessoa influente e famosa, pois pode acontecer a identificação com o seu ídolo. 

O compartilhamento de métodos específicos pode fornecer às pessoas que estão pensando em cometer suicídio informações detalhadas e acessíveis sobre como fazê-lo. Isso pode aumentar o risco de uma pessoa seguir adiante com seus planos, especialmente se estiver em um estado emocional frágil e vulnerável. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 milhão de pessoas cometem suicídio a cada ano em todo o mundo. No Brasil, já passamos de 15 mil casos notificados anualmente, com uma tendência preocupante de crescimento entre os jovens. Esses números apesar de alarmantes podem não ser reais, pois há muita subnotificação em mortes suspeitas, e também não refletem totalmente o impacto devastador que o suicídio tem sobre as famílias e pessoas próximas. São muitas as pessoas afetadas direta e indiretamente. 

O compartilhamento de tentativas de suicídio nas redes sociais não é apenas prejudicial para aqueles que estão passando por dificuldades, mas também para aqueles que estão em suas redes de apoio. Amigos e familiares podem se sentir impotentes, culpados ou sobrecarregados ao serem expostos a essas informações. Pessoas que também já passaram por essas situações também podem ser afetadas ao lerem os relatos.

O suicídio é uma questão de saúde pública e que pode ser prevenida. Mas isso exigirá um compromisso sério de todos os setores da sociedade. Para prevenir o suicídio, precisamos investir em campanhas de promoção da saúde mental e prevenção de doenças. Isso inclui não apenas a conscientização sobre os transtornos mentais, mas também o tratamento adequado e a garantia de acesso a medicamentos essenciais por meio do sistema público de saúde e farmácias populares.

O comportamento suicida é uma complicação das doenças mentais. A existência de transtornos mentais é considerada um fator de risco significativo para o suicídio. Praticamente 100% das pessoas que tentam ou cometem suicídio têm algum possui algum quadro psiquiátrico, diagnosticada ou não. Infelizmente, muitas delas não têm acesso ao tratamento adequado. 

Além disso, é fundamental combater o estigma associado às doenças mentais. O estigma pode impedir que as pessoas busquem ajuda quando mais precisam e não recebam o tratamento adequado. 

Outra medida que seria de grande ajuda seria a implementação de políticas mais rigorosas para lidar com conteúdo relacionado ao suicídio nas redes sociais. Incluindo a remoção rápida de postagens que glorificam o suicídio ou induzem pessoas a isso, bem como oferecer informações confiáveis sobre como buscar ajuda médica para tratar os transtornos mentais para aqueles que estão mais vulneráveis. 

Promover campanhas visando a conscientização sobre saúde mental e o estigma que cerca as doenças mentais é fundamental. Muitas pessoas que poderiam se beneficiar do tratamento não o procuram devido ao medo do julgamento social ou à falta de entendimento sobre as doenças mentais. 

É importante lembrar que o suicídio não é uma saída e que há esperança e ajuda disponíveis. Se você ou alguém que você conhece está lutando com pensamentos suicidas, não hesite em buscar ajuda médica e serviços de saúde. Procure um psiquiatra. Fale para qualquer pessoa sobre seus pensamentos e peça ajuda. Tudo tem que ser resolvido de imediato. Você não está sozinho e há pessoas dispostas a ajudá-lo.

Link: https://gpsbrasilia.com.br/artigo-por-que-devemos-ter-cuidado-ao-falar-de-suicidio-nas-redes-sociais/

*Dr. Antônio Geraldo da Silva é médico psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e Diretor Clínico do IPAGE – Instituto de Psiquiatria Antônio Geraldo. É Coordenador Nacional da Campanha “Setembro Amarelo”, da Campanha ABP/CFM Contra o Bullying e o Cyberbullying e da Campanha de Combate à Psicofobia.


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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