O peso de existir: quando a vida parece insuportável

17 de março de 20269min58
talipozer-depression-4395124_1280

*Por Adriana Moraes


Em alguns momentos da vida, o sofrimento emocional pode se tornar tão intenso que simplesmente continuar existindo parece uma tarefa pesada demais. Para quem nunca passou por isso, pode ser difícil compreender. Mas, para muitas pessoas, há períodos em que a dor psicológica se torna profunda, persistente e silenciosa.
Essa sensação é frequentemente descrita como um “peso de existir”, uma experiência em que tudo parece exigir um esforço enorme. Atividades simples, como levantar da cama, trabalhar, conversar ou tomar decisões cotidianas, passam a exigir uma energia que parece não existir mais.

Esse estado emocional pode surgir em diferentes contextos. Perdas importantes, frustrações profundas, pressões profissionais, conflitos familiares, isolamento social ou problemas de saúde mental podem contribuir para que a vida comece a parecer insuportável. Em alguns casos, a pessoa também enfrenta depressão, ansiedade intensa, esgotamento emocional ou dependência química, fatores que podem aumentar a sensação de desesperança.


Quando o sofrimento não é visível

O que muitas vezes torna esse sofrimento ainda mais difícil é que ele nem sempre é visível. Há pessoas que continuam trabalhando, cumprindo compromissos e aparentando normalidade enquanto, internamente, vivem um grande sofrimento. Por fora, tudo parece seguir como sempre. Por dentro, no entanto, a mente pode estar travando uma batalha diária.

Outro aspecto importante é que, quando alguém chega a esse nível de sofrimento, a visão sobre a própria vida pode ficar distorcida. A pessoa pode sentir que não há saída, que nada vai melhorar ou que seu sofrimento nunca terá fim. Esses pensamentos fazem parte do estado emocional e não necessariamente refletem a realidade. Muitas vezes, são consequência do próprio adoecimento psicológico.

 

O que a neurociência explica sobre esse sofrimento?

Se os conceitos da neurociência parecem difíceis de entender, não se preocupe. No final deste texto deixarei os links para os artigos científicos completos, para quem quiser se aprofundar no assunto.

Do ponto de vista da neurociência, esse sofrimento intenso também possui bases biológicas. Estudos indicam que a dor emocional profunda pode estar associada a alterações em circuitos cerebrais responsáveis pela regulação das emoções e pela percepção da dor psicológica. Regiões como o córtex pré-frontal, a amígdala e o córtex cingulado anterior participam diretamente desse processo.

Em termos simples, essas áreas ajudam o cérebro a interpretar emoções, lidar com situações difíceis e regular o sofrimento emocional.

Quando esses sistemas ficam hiperativos ou desregulados, algo que pode ocorrer em quadros de depressão, estresse crônico ou traumas, a pessoa pode experimentar uma sensação intensa de aprisionamento psicológico, dificuldade de enxergar alternativas e uma percepção ampliada do próprio sofrimento. Em outras palavras, o cérebro pode passar a interpretar a dor emocional de forma mais intensa e persistente.

Além disso, alterações em neurotransmissores também desempenham um papel importante. A redução da atividade da serotonina tem sido associada à patogênese da depressão e a comportamentos como agressividade, impulsividade, ideação suicida e tentativas de suicídio.

De maneira simplificada, a serotonina é uma substância química do cérebro que ajuda a regular o humor, o controle dos impulsos e a sensação de bem-estar.

Pesquisas mostram que níveis mais baixos do principal metabólito da serotonina, o ácido 5-hidroxiindolacético (5-HIAA), foram identificados no líquido cefalorraquidiano (LCR) de pessoas com transtornos psiquiátricos que já tentaram suicídio, em comparação com indivíduos sem histórico de tentativa e com controles saudáveis.

Nesse contexto, é importante compreender que, muitas vezes, a pessoa não deseja necessariamente morrer, mas sim interromper uma dor emocional intensa que parece não ter fim.

A importância de buscar ajuda
Por isso, falar sobre saúde mental é tão importante. O sofrimento emocional profundo não deve ser ignorado nem enfrentado sozinho. Assim como outras condições de saúde, os transtornos mentais podem e devem ser tratados. Psicoterapia, acompanhamento médico, mudanças no estilo de vida e apoio social podem fazer uma grande diferença no processo de recuperação.

Também é fundamental que a sociedade aprenda a olhar com mais atenção para os sinais de sofrimento. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, desesperança constante, falas negativas sobre a vida ou uma tristeza persistente podem indicar que alguém está passando por um momento difícil.

Buscar ajuda é um passo importante para cuidar da própria vida. Em muitos casos, quando a pessoa recebe apoio adequado, aquilo que parecia um sofrimento sem saída pode se transformar em um caminho de reconstrução.

Se precisar de ajuda, procure orientação profissional com um psiquiatra.

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).


Fontes:
Bases neurobiológicas do aumento do risco de comportamento suicida – https://www.mdpi.com/2073-4409/10/10/2519?utm_source=chatgpt.com
 

Conectividade da amígdala com depressão e ideação suicida com comportamento suicida: uma meta-análise de ressonância magnética estrutural, ressonância magnética funcional em repouso e ressonância magnética funcional de tarefa
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0278584623000222?utm_source=chatgpt.com

 

Imagem de Talip Özer por Pixabay


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



Newsletter


    Skip to content