O Brasil está conseguindo reduzir o número de fumantes?

Por que é tão difícil parar de fumar? O que faz a nicotina provocar tanta dependência? O Brasil está conseguindo reduzir o número de fumantes? E o cigarro eletrônico realmente ajuda quem deseja abandonar o cigarro convencional?
Essas são algumas das questões que ajudam a compreender o cenário atual do tabagismo e mostram por que o tema continua exigindo atenção, mesmo diante dos avanços alcançados nas últimas décadas.
Por que é tão difícil parar de fumar?
A dificuldade de abandonar o cigarro não pode ser explicada apenas pela falta de determinação. Do ponto de vista da neurociência, a nicotina aumenta a liberação de dopamina no cérebro, especialmente em áreas relacionadas à recompensa. Com o uso repetido, o cérebro se adapta a essa exposição, favorecendo a fissura, os sintomas de abstinência e a dificuldade de interromper o consumo.
A nicotina também atua no Sistema Nervoso Central (SNC), influenciando processos relacionados à recompensa, à motivação, ao aprendizado e ao controle do comportamento. Com o uso contínuo, essas alterações contribuem para a manutenção da dependência.
Por isso, o tabagismo é reconhecido como uma doença crônica relacionada à dependência de nicotina, e não apenas como um hábito.
Os índices de tabagismo vêm caindo no Brasil, mas isso significa que o problema está sendo controlado?
O Brasil apresentou uma redução importante na proporção de pessoas que fumam cigarros convencionais, resultado das políticas de controle do tabaco adotadas ao longo das últimas décadas. No entanto, isso não significa que o problema esteja controlado. Dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), realizado em 2023, mostram uma queda do tabagismo em comparação com levantamentos anteriores.
Esse resultado representa um avanço das políticas de controle do tabaco. Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros ainda fumam e a dependência de nicotina continua sendo um importante problema de saúde pública. Além disso, o cenário mudou com a presença de novas formas de consumo de nicotina, o que exige atenção contínua às estratégias de prevenção e tratamento.
Cigarro eletrônico ajuda a abandonar o cigarro?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes atualmente. Os dispositivos eletrônicos para fumar podem conter nicotina e manter a dependência. Por isso, não devem ser considerados produtos inofensivos nem uma solução automática para quem deseja parar de fumar.
Fumar pouco também faz mal?
Sim. Reduzir a quantidade de cigarros pode diminuir a exposição, mas não elimina os riscos. A fumaça do cigarro contém milhares de substâncias químicas, muitas delas tóxicas e associadas ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, respiratórias e diversos tipos de câncer.
A ideia de que fumar apenas alguns cigarros por dia não oferece riscos pode contribuir para a manutenção do consumo e dificultar a decisão de buscar ajuda para parar.
Parar de fumar depois de muitos anos ainda vale a pena?
Sempre. A cessação do tabagismo traz benefícios à saúde mesmo para quem fuma há muitos anos. Quanto mais cedo a pessoa consegue parar, maiores tendem a ser os benefícios, mas interromper o consumo continua sendo importante em qualquer idade.
Para algumas pessoas, porém, parar não é simples. O acompanhamento profissional pode ajudar a avaliar o grau de dependência, lidar com os sintomas de abstinência e escolher estratégias adequadas para aumentar as chances de uma cessação sustentada.
O que o Dia Nacional de Combate ao Fumo nos lembra?
O Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, é uma oportunidade para reforçar que o tabagismo continua sendo uma questão de saúde pública. Criada em 1986, a data integra a trajetória brasileira de prevenção e controle do tabaco.
Mais do que alertar sobre os riscos do cigarro, a data reforça a importância de prevenir a iniciação, reduzir a exposição ao tabaco e ampliar o acesso ao tratamento da dependência de nicotina.
O Brasil avançou no controle do tabagismo, mas o cenário continua em transformação. Novos padrões de consumo e novas formas de exposição à nicotina exigem estratégias permanentes de prevenção, informação e tratamento.
*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química e Saúde Mental – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas)
