28 de setembro de 2020

Uso de substâncias psicoativas e comportamentos de risco

1 de maio de 20097min

Rev. Saúde Pública vol.43 no.1 São Paulo Feb. 2009

CARTA AO EDITOR

Prezados editores,

O artigo de Bastos et al1 (2008), publicado na Revista de Saúde Pública, constitui uma importante contribuição ao estudo do uso de substâncias psicoativas e sua relação com comportamentos de risco à saúde sexual e reprodutiva. Como ressaltam os autores na introdução, há diversos problemas de saúde relacionados ao uso de álcool e de outras substâncias, o que torna extremamente relevante seu estudo em âmbito populacional no Brasil. O objetivo desta carta é salientar alguns aspectos, relacionados ao uso de álcool, que a nosso ver, foram insuficientemente discutidos pelos autores.

Um primeiro ponto diz respeito à noção de uso regular. Os autores estabeleceram como regular o uso de bebidas alcoólicas em freqüência maior do que quatro vezes por semana, a partir da pergunta: “Em algum momento da sua vida você passou a beber regularmente mais do que quatro vezes por semana”. Embora “freqüência” seja um marcador significativo, estudos recentes têm ressaltado a importância de avaliar também a quantidade de álcool ingerida em cada ocasião, dada a relação desta com agravos à saúde.6 Na verdade, o uso freqüente não é necessariamente uso de risco, podendo mesmo estar associado a fatores protetores. Estudo realizado com homens cujo estilo de vida foi considerado saudável (não fumantes, com dietas adequadas, índice de massa corpóreo inferior a 25 e prática de atividade física diária), encontrou uma diminuição do risco para infarto do miocárdio entre aqueles que ingeriam de 5,0 a 29,9g de álcool diariamente, comparados aos abstinentes.4

Embora as definições variem, considera-se como uso de risco (“binge drinking”) a ingestão de quatro ou mais drinques por ocasião para as mulheres e cinco ou mais para os homens em um curto espaço de tempo.3 Laranjeira et al,5 a partir de amostra nacional, estimaram que a prevalência de uso de risco no Brasil é 14% entre os homens e 3% entre as mulheres. No estudo de Bastos et al,1 entre aqueles que ingerem álcool freqüentemente, estão incluídos sujeitos que fazem uso de grandes quantidades ao lado de outros que utilizam pequenas quantidades por ocasião, o que pode ter afetado as análises. Utilizando-se como exemplo o uso de preservativos, observa-se que os autores não encontraram associação entre “não usar preservativos” e fazer uso freqüente de álcool. Provavelmente, isto ocorreu em função de estarem reunidos em uma mesma categoria sujeitos com padrões muito distintos de uso de álcool. Caso fosse possível separá-los é possível que a associação entre sexo inseguro e binge drinking se mostrasse significativa, como apontam pesquisas recentes.2

Por fim, queremos parabenizar os autores pela realização do estudo, acrescentando que estudos transversais que abordam diferentes aspectos da saúde geral – como álcool e saúde sexual e reprodutiva – são ainda necessários no Brasil. Tais pesquisas permitem identificar as mudanças de comportamento que ocorrem no País, identificando grupos de risco e subsidiando a criação de políticas públicas.

Maria Cristina Pereira Lima
Florence Kerr Correa
Faculdade de Medicina de Botucatu
Ligia Regina Franco Sansigolo
Universidade Federal do Ceará

 

REFERÊNCIAS

1. Bastos FI, Bertoni N, Hacker MA, Grupo de Estudos em População, Sexualidade e AIDS. Consumo de álcool e drogas: principais achados de pesquisa de âmbito nacional, Brasil 2005. Rev Saude Publica. 2008;42(Supl 1):109-17.         [ Links ]

2. Bellis MA, Hughes K, Calafat A, Juan M, Ramon A, Rodrigues JA, et al. Sexual uses of alcohol and drugs and the associated health risks: A cross sectional study of young people in nine European cities. BMC Public Health. 2008;8:155. DOI: 10.1186/1471-2458-8-155.         [ Links ]

3. Laranjeira R, Pinsky I, Zaleski M, Caetano R. I Levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas; 2007.         [ Links ]

4. Mukamal KJ, Chiuve SE, Rimm EB. Alcohol consumption and risk for coronary heart disease in men with healthy lifestyles. Arch Int Med. 2006;166:2145-50. DOI: 10.1001/archinte.166.19.2145        [ Links ]

5. National Institute of Alcohol Abuse and Alcoholism. (2004) NIAAA Council approves definition of binge drinking. NIAAA Newsletter [internet]. 2004 [citado 2008 nov 10];(3):3. Disponível em: http://pubs.niaaa.nih.gov/publications/Newsletter/winter2004/Newsletter_Number3.pdf        [Links ]

6. Rehm J, Room R, Graham K, Monteiro M, Gmel G, Sempos C. The relationship of average volume of alcohol consumption and patterns of drinking to burden of disease – an overview. Addiction. 2003;98:1209-28. DOI: 10.1046/j.1360-0443.2003.00467.x        [ Links ]


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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