28 de setembro de 2020

Tráfico no Rio: menos lucro, mais violência

30 de março de 20097min

Estudo revela que traficantes ganham R$ 130 milhões por ano

Alexandre Rodrigues, RIO

Traficantes de drogas no Rio lucram em torno de R$ 130 milhões por ano. É o que estima estudo da Secretaria de Fazenda do Estado do Rio que tentou dimensionar o mercado de entorpecentes na capital fluminense, cujo cotidiano tem sido marcado pelas disputas de bocas de fumo por grupos rivais. A cifra é significativa, mas mostra que o tráfico é menos rentável do que se pensa.
Em A Economia do Tráfico na Cidade do Rio de Janeiro: Uma Tentativa de Calcular o Valor do Negócio, de dezembro do ano passado, os técnicos da Subsecretaria de Estudos Econômicos Sérgio Ferreira e Luciana Velloso estimam que as quadrilhas faturam entre R$ 316 milhões e R$ 633 milhões por ano no comércio de maconha, cocaína e crack, mas lucram pouco com um mercado decadente e o investimento em armas imposto pela repressão.
Cruzando dados policiais, sociais e econômicos de diversas fontes, eles estimaram um alto custo operacional com a logística de fornecimento e autoproteção e as perdas com apreensões policiais. Só a reposição de armas e a compra de produtos custam entre R$ 121 milhões e R$ 218 milhões por ano. Há ainda mão de obra e outros gastos. Sobram às quadrilhas cerca de R$ 130 milhões por ano, a média entre os R$ 26 milhões e os R$ 236 milhões de lucro calculados para os cenários mais e menos favoráveis do mercado de drogas, que é muito instável. “Um excedente de R$ 26 milhões deixa muito pouco a outras despesas de manutenção do tráfico não contabilizadas (…). Haveria muito pouco para repartir para outros agentes que pudessem prover o apoio mais amplo no asfalto e outras áreas de interesse para o desenvolvimento deste comércio”, diz o estudo.
Mesmo considerando demanda e preços melhores, o que elevaria o lucro para R$ 236 milhões, os pesquisadores avaliam que ainda não seria alto o excedente operacional. “Este é um valor bastante significativo, mas não extraordinariamente alto em relação aos recursos do resto da sociedade.” Para eles, o valor real está “no meio do caminho”.
A pesquisa não avaliou drogas sintéticas e traça um perfil de consumo de drogas no Rio dentro da média das outras capitais. “O Rio não é um ponto fora da curva para nenhuma das três drogas, tendo um porcentual de consumo próximo ao modal”, atestam. Eles também não consideram os ganhos das quadrilhas como entreposto do tráfico internacional, indicando que essa atividade não é substantiva. Segundo o estudo, o tráfico de drogas do Rio é dependente do mercado interno.
“O usuário dentro dessa cadeia tem participação importante, assim como o produtor, o fornecedor, o transportador, o vendedor. Essas pessoas (traficantes) brigam no fundo por dinheiro. E de onde sai o dinheiro? De quem consome. Quem consome tem de pagar. Naquelas áreas (zona sul), paga e paga muito bem”, disse o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, na semana passada, ao admitir ter sido surpreendido pela guerra entre traficantes pelo controle da venda de drogas na Ladeira dos Tabajaras que aterrorizou Copacabana, na zona sul do Rio. Beltrame invocou a consciência dos usuários, que financiam o arsenal das quadrilhas como seus clientes, e lembrou que é o dinheiro gerado pela venda de drogas que move exércitos de bandidos.
Os técnicos da Fazenda mostram que o poder econômico do tráfico no Rio não é comparável ao de cidades em países produtores, como a Colômbia, ou entrepostos para grandes mercados internacionais, como o México. No entanto, advertem que um mercado pequeno pode ser um motivo a mais para o fortalecimento do crime organizado. “Uma consequência de margens baixas é o estímulo à formação de consórcios para diluição dos custos fixos”, escreveram, dando como exemplo a associação de grupos para compartilhar armas, por exemplo. Investigações recentes já revelaram a interação de facções criminosas como o PCC paulista e o Comando Vermelho carioca na logística de aquisição de armas e drogas.

NÚMEROS

90 toneladas
de maconha são consumidas por ano no Rio

8 toneladas
é a demanda por cocaína

4 toneladas
é a média comercializada de crack

R$ 121 milhões
é o custo mínimo estimado com logística e apreensões policiais

16.300 pessoas –
ou o equivalente a 1,5% dos moradores de favelas no Rio – estão
envolvidas diretamente na economia da droga


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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