1 de outubro de 2020

Estudo na UNIFESP

27 de março de 200914min

Entrevista Dr Drauzio Varella
Drauzio – Vocês conduziram um estudo na UNIFESP, que foi patrocinado pela FAPESP, com mil adolescentes a respeito do consumo de drogas durante a gravidez. Você poderia descrevê-lo?
Ronaldo Laranjeira – Trata-se de um projeto temático desenvolvido pelos setores de neonatologia e psiquiatria da UNIFESP e patrocinado pela FAPESP. No início, a preocupação era entender as condições que levam as adolescentes grávidas ao consumo de drogas e o impacto que esse consumo causa na criança. 
O trabalho foi realizado num hospital da Cachoeirinha, um bairro da zona norte de São Paulo (SP). Ao longo de quatro anos, entrevistamos mil adolescentes escolhidas aleatoriamente e que foram submetidas no terceiro trimestre da gravidez a um exame sofisticado para detectar o consumo de drogas. Ele é conhecido como o “exame do fio de cabelo”, porque analisando um único fio de cabelo é possível identificar qualquer tipo de droga que a adolescente tenha consumido. Confirmar esse dado é muito importante, pois, nas entrevistas, todas negam que usaram drogas nesse período.
O estudo propunha também avaliar a condição mental e psiquiátrica da adolescente e um exame neurocomportamental bastante sensível na criança, 33 horas depois do nascimento, realizado pelos profissionais da neonatologia.
O resultado desses exames foi surpreendente: 4,6% das adolescentes consumiram maconha no último trimestre da gestação e 1,3%, cocaína. No total, portanto, quase 6% das adolescentes usaram drogas nos três meses que antecederam o parto.
Esse talvez seja o dado mais significativo que levantamos: é grande o número de adolescentes que consomem drogas, mas nenhuma delas confirma o uso, quando entrevistada.
Se pensarmos que 25% dos partos no Brasil são de adolescentes, ou seja, em cada quatro partos uma das mães é adolescente, dá para ter uma idéia da dimensão do problema. Por isso, os obstetras precisam estar mais atentos, principalmente na população de adolescentes, ao consumo regular de drogas durante a gestação.
Drauzio – Quais foram as alterações neurocomportamentais nos bebês cujas mães usaram maconha durante a gravidez?
Ronaldo Laranjeira – São alterações sutis. Os testes aplicados na criança dormindo e quando está acordada revelaram maior irritabilidade e excitabilidade nos recém-nascidos de mães que usaram maconha. Na verdade, verificamos que a maconha provoca alterações mais importantes do que a cocaína, porque contêm mais de 400 substâncias, o que aumenta o nível de toxicidade no sangue que passa para o feto.
Drauzio – Talvez porque a maconha seja considerada uma droga mais leve, seu consumo seja maior pelas adolescentes grávidas.
Ronaldo Laranjeira – De fato, muitos pensam que a maconha é uma substância natural. Isso acontecia também com o cigarro e as pessoas achavam que fumar na gravidez não causava problemas. Hoje, ao contrário, ficamos chocados ao ver uma gestante fumando, porque sabemos que a fumaça provoca danos no feto.
No caso da maconha, ainda estamos na fase em que muitos supõem que ela seja uma substância inofensiva que não causa alterações no feto. No entanto, nossos estudos demonstraram que, nas primeiras horas de vida, é possível distinguir as crianças que foram expostas à ação da maconha durante a gravidez das mães daquelas que não foram. Chegamos a essa a conclusão aplicando um estudo duplo-cego, ou seja, quem fazia a avaliação da criança não sabia se a mãe  tinha usado maconha ou não.
Drauzio – É importante explicar para quem não está acostumado com a metodologia científica, o que são os ensaios em duplo-cego. No caso específico desse trabalho, o exame neuropediátrico da criança era executado por um médico que não sabia se a mãe tinha usado drogas ou não. Só no final do estudo é que são comparados os dois resultados e estabelecidas as relações entre eles.  
Ronaldo Laranjeira – Só depois de vários meses, depois de todos os dados serem coletados, é que foram identificadas as mães das crianças avaliadas e a análise estatística realizada mais tarde demonstrou que aquelas que haviam consumido maconha tinham filhos diferentes se comparados com os filhos cujas mães não consumiram a droga.
Drauzio – Em que consistiam essas diferenças?
Ronaldo Laranjeira -.O exame neurocomportamental realizado algumas horas depois do nascimento dos filhos de usuários de maconha mostrou que o nível de excitação e irritabilidade nessas crianças é maior e que elas passam da fase do sono para a fase de alerta com mais dificuldade. E mais: quando se faz o seguimento depois de quatro ou cinco anos, verifica-se que as crianças nascidas de mães que usaram a droga têm dificuldade de leitura, de concentração e de controlar os impulsos.
Os estudos indicam, portanto, que a exposição constante no útero materno às alterações químicas produzidas pela maconha possivelmente provoca mudanças no cérebro que fazem com que essas diferenças sutis tenham efeito mais permanente do que se imaginava.
Drauzio – Isso é assustador…
Ronaldo Laranjeira – É assustador, especialmente se compararmos com o que aconteceu com o cigarro. Há muito tempo se sabia que filhos de mães fumantes tinham baixo peso, mas só depois de muitos e muitos anos foi possível demonstrar que as alterações produzidas pela fumaça do cigarro no feto não se restringem à perda de peso. Hoje, está provado que essas crianças têm comprometimentos que permanecem ao longo da vida, principalmente problemas de desatenção. São essas sutilezas que fazem a diferença.
Estamos dando seguimento a nosso estudo, acompanhando os filhos de parte das adolescentes incluídas na amostragem. Tenho certeza de que poderemos demonstrar que o fato de a mãe ter bebido ou usado maconha e cocaína durante a gestação vai ter repercussões permanentes em seus filhos.
Drauzio – O problema é que a mãe não percebe essas alterações quando a criança nasce.
Ronaldo Laranjeira – As alterações só ficam evidentes quando podemos comparar as crianças expostas à droga no útero materno com as que não foram expostas, como ocorreu  no nesse trabalho com mil adolescentes. A intenção era isolar um indivíduo e incluí-lo num grupo de crianças expostas a algum fator, a fim de compará-lo com outros que não foram submetidos às mesmas condições.
A mãe não consegue perceber essas diferenças porque lida com um único indivíduo. Além de não ter elementos para comparar, são vários os fatores que podem interferir no desenvolvimento de uma criança. Vale a pena observar que não estamos falando de alterações maiores como as da síndrome alcoólica fetal. Não basta bater os olhos na criança para saber que a mãe usou maconha na gravidez. Estamos falando de alterações sutis do comportamento, que ao longo da vida fazem  grande diferença na adaptação ao meio. Faz diferença a pessoa ser mais ou menos atenta e se consegue controlar os impulsos ou não.
Drauzio – Por causa da epidemia de crack nas grandes cidades, os americanos definiram um padrão neurocomportamental da criança de mãe usuária dessa droga durante a gravidez. Você disse que das mil adolescentes estudadas, 1,3% usou cocaína. Do ponto de vista estatístico é um número baixo, 13 crianças em mil seriam portadoras da síndrome do crack, mas é um número muito importante se considerarmos os efeitos que a droga produziu nessas crianças. Vocês encontraram evidencias do padrão da síndrome do crack no grupo de adolescentes estudadas?
Ronaldo Laranjeira – Pelo baixo número de usuárias e como aparentemente as meninas não tinham desenvolvido dependência da droga e consumiram cocaína e não crack, não encontramos as alterações macrocóspicas que ficaram evidentes nos estudos americanos. Eles focalizaram uma população de mães dependentes da droga, que não interromperam o consumo depois da gravidez. Nós acompanhamos adolescentes normais, selecionadas nas visitas que fizemos ao hospital da Cachoeirinha. Não era uma população de dependentes nem de álcool, nem de drogas e, portanto, as manifestações não ficam tão óbvias.
No entanto, a literatura registra as evidências  de que usar álcool, cocaína ou crack, principalmente no terceiro trimestre da gravidez, provoca uma síndrome que eles chamam de “bebês do crack”. Essas crianças são irritadas, inquietas, têm dificuldade para dormir e comprometimentos também do ponto de vista evolutivo.
Drauzio – O sistema nervoso central tem uma barreira para impedir que substâncias tóxicas cheguem ao cérebro. A placenta não tem essa barreira, pois moléculas pequenas como a do álcool, do tetra-hidrocanabinol (componente psiquicamente ativo da maconha) e as moléculas psicoativas da cocaína conseguem ultrapassá-la. Por que o sistema nervoso central  do feto não bloqueia a agressão dessas moléculas tóxicas?
Ronaldo Laranjeira –  A placenta é uma barreira que evolutivamente faz sentido porque protege o feto da agressão de algumas substâncias tóxicas. No caso do álcool, da maconha e da cocaína, por serem moléculas muito pequenas, a placenta não consegue exercer essa proteção. Da mesma forma, como o sistema nervoso ainda não desenvolveu a barreira que deveria impedir tal agressão, o cérebro em formação do feto é atingido por todas essas moléculas tóxicas que interferem  em sua arquitetura química moldada nessa fase. Portanto, também do ponto de vista biológico, esse cérebro vai ser diferente. A alteração é sutil, mas vai fazer diferença no desenvolvimento da criança.
Drauzio – Também se pode garantir que o impacto dessas drogas num cérebro em formação é muito mais profundo do que num cérebro maduro.
Ronaldo Laranjeira – Sem dúvida, há alterações no desenvolvimento das crianças expostas a substâncias tóxicas na vida fetal. O seguimento dessas crianças deixa evidente que, a partir dos três, quatro, cinco anos, elas apresentam principalmente alterações em sua adaptação ao meio e dificuldade de leitura.


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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