Bullying nas escolas de saúde

26 de janeiro de 202012min

Prática de violência interpessoal durante a graduação pode levar à depressão e à desistência do curso

Pesquisas internacionais realizadas a partir da década de 1990 mostram que a violência interpessoal, aquela que ocorre entre duas ou mais pessoas, aparece como prática comum no cotidiano do ensino superior da área da saúde, apresentando-se com maior intensidade nos cursos de graduação em medicina. Atitudes que envolvem discriminação, perseguição e bullying são as principais ocorrências constatadas no percurso da formação médica, com prejuízos ao desempenho acadêmico e comprometimento da conduta profissional dos estudantes, podendo refletir, inclusive, na qualidade de atendimento aos pacientes.

“No Brasil, embora haja pesquisas sobre transtorno mental, depressão, qualidade de vida e esgotamento físico e emocional entre estudantes de medicina, ainda são poucos os estudos sobre a ocorrência de bullying, maus-tratos e outras formas de abuso durante o curso médico”, explica Maria Fernanda Tourinho Peres, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). A partir de pesquisa realizada em 2013 com 317 alunos da faculdade, Peres constatou que a sobrecarga de atividades, o número excessivo de horas de estudo e o contato com doenças e a morte de pacientes podem resultar em quadros de depressão, favorecer comportamentos agressivos e a prática de bullying, fazendo com que as vítimas dessas ações se sintam insatisfeitas com a escolha profissional e passem a considerar, inclusive, o abandono do curso.“O assunto chegou até mim por meio de um grupo de alunos da faculdade, pois eram comuns os relatos de sofrimento entre os colegas de turma”, recorda.

O impacto do bullying na formação de profissionais da área da saúde foi tema do artigo “Perceived bullying among internal medicine residents”, publicado em agosto pelo Journal of the American Medical Association. Baseado em pesquisa realizada em 2016 pelo American College of Physicians – uma das principais organizações médicas dos Estados Unidos –, que reuniu respostas de aproximadamente 24 mil residentes em medicina do país, o artigo mostra que 13% dos participantes relataram ter sofrido com situações opressivas desde o início do treinamento em residência médica. Dentre as ações mais comuns estão o assédio verbal (80%), o assédio físico (5,3%) e o assédio sexual (3,6%). Esgotamento, depressão e piora no desempenho acadêmico, durante a residência médica, foram as consequências mais citadas pelos entrevistados.

“O bullying envolve relações de poder e, na maioria dos casos, parte daqueles que se consideram mais fortes, seja por questões emocionais, sociais ou mesmo físicas”, explica Zila Sanchez, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da mesma instituição. Apesar de os estudos sobre bullying estarem mais concentrados entre estudantes da educação básica, a pesquisadora afirma que é possível transpor esse conhecimento para o âmbito da formação médica. “Agressão física, verbal, desmerecimento, fofoca e racismo são elementos comuns em ambos os estágios de formação”, diz.

Sanchez também chama a atenção para o conceito de bullying, que, segundo ela, acabou sendo utilizado para definir, equivocadamente, diferentes situações de violência interpessoal. O bullying, no entanto, pressupõe relação opressiva entre pares, ou seja, ocorre de forma repetida entre pessoas de um determinado grupo social, como os alunos de um mesmo curso, por exemplo. “Já as ações que acontecem de professor para aluno são consideradas assédio, justamente por envolverem agentes com diferentes posições hierárquicas dentro da instituição”, explica.

Papel da instituição
Relatos de discriminação, trotes violentos, ocorrências de abuso sexual e consumo excessivo de bebidas alcoólicas em festas universitárias são velhos conhecidos dos cursos da área da saúde. No entanto, pouco se fazia para investigar a prevalência de abusos no cotidiano dos estudantes. “Existe nas faculdades uma tendência de minimizar esse tipo de problema”, diz Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para ela, as justificativas adotadas partem da própria cultura de formação dos profissionais da área, com o reforço de ideias preconcebidas de que seriam desvios pontuais e que isso teria sido sempre assim.

“Há uma forte estrutura hierárquica de poder nas faculdades de medicina porque o indivíduo mais velho supervisiona o aprendizado do mais novo e isso acaba gerando relações de opressão”, afirma Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia da FM-USP e diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), que chama a atenção para o fato de essas faculdades serem instituições centenárias, mantendo cristalizadas práticas do passado e que não podem ser ignoradas no contexto atual. “O trote universitário, por exemplo, faz parte dessa tradição e foi se tornando mais violento com o passar do tempo, até o momento em que foi necessário discuti-lo publicamente”, recorda.

Indicado em 2014 para presidir uma comissão que investigou o número crescente de denúncias de violência, maus-tratos e abuso sexual de estudantes da FM-USP, Saldiva percebeu que havia pouco espaço para a discussão do assunto dentro da instituição ao ouvir da direção da escola o argumento de que os problemas seriam resolvidos internamente – porém, sem providências concretas. O caso ganhou projeção a partir de inquérito civil aberto pela Promotoria de Justiça de Direitos Humanos e Inclusão Social do Ministério Público e de uma Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo para apurar violações de direitos humanos nas faculdades paulistas. “É importante lembrar que esse não é um problema exclusivo da USP e envolve, também, outros cursos de graduação”, diz.

Para Saldiva, a criação de movimentos de alunos nos últimos anos, como os coletivos que discutem questões de gênero, etnia e orientação sexual, por exemplo, tem servido como rede de apoio às vítimas que passam por situações de violência física ou psicológica dentro das instituições. “Sinto que houve uma melhora após essa crise. O estabelecimento de uma ouvidoria para receber esse tipo de denúncia e campanhas de prevenção fizeram diminuir o número de casos.”

Além da relação entre veterano e calouro, a presença do assédio também é observada no trato entre professores e alunos. “A intimidação em sala por parte do professor pode refletir na constituição da identidade profissional do médico, assim como na de qualquer outro profissional”, explica Marta Angelica Iossi Silva, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP. Em geral, atos de violência por parte do corpo docente aparecem em forma de ameaças de reprovação, humilhações, atribuição de tarefas com fins punitivos ou mesmo comentários negativos e desmotivadores sobre a área de atuação profissional.

“O interesse de pesquisadores da área da saúde sobre a violência no ambiente acadêmico tem feito com que instituições se sensibilizem em relação ao problema”, observa Matheus Francoy Alpes, fonoaudiólogo e ex-aluno da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Em trabalho de mestrado concluído em 2018 na própria FMRP, ele construiu uma escala com 56 situações de violência interpessoal relacionadas, principalmente, à discriminação social, características pessoais e desempenho acadêmico. Os dados foram reunidos a partir de entrevistas com 132 alunos e 32 professores dos sete cursos da instituição: medicina, ciências biomédicas, fisioterapia, fonoaudiologia, informática biomédica, terapia ocupacional e nutrição. “Evidenciou-se que eram muitos os casos de bullying. Porém não eram tomadas medidas efetivas para combatê-los”, conta Alpes.

Segundo o pesquisador, são múltiplos os fatores que levam à prática do bullying no ensino superior, frequentemente relacionados a aspectos culturais, históricos e familiares. “O ingresso na universidade coincide com a fase final da adolescência, em que o aluno enfrenta vários desafios para se adaptar aos novos desafios da vida adulta”, avalia. Após a defesa do trabalho, foi oficializada por meio de edital na FMRP-USP uma Comissão de Direitos Humanos com o objetivo de acolher e dar orientações às vítimas de violência da faculdade, além de investigar os casos denunciados. Como um dos integrantes do grupo, Alpes comemora o fato de que, desde então, as ocorrências vêm caindo a partir das campanhas de conscientização. “Fica mais fácil combater o bullying quando ele é oficialmente discutido no ambiente acadêmico.”


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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