Estudo trata perfil dos frequentadores da Cracolândia no centro de São Paulo

27 de fevereiro de 202018min

No dia 03 de fevereiro de 2020 foram divulgados dados de uma pesquisa realizada pela Unidade de Pesquisas de Álcool e Drogas (UNIAD), da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e que mapeou o perfil dos frequentadores em 2016, 2017 e 2019.

Esse levantamento foi realizado em quatro momentos diferentes: em maio de 2016, maio de 2017, junho de 2017 e em outubro de 2019.

Os resultados foram obtidos através de métodos mistos. Para a investigação do perfil, foram realizadas entrevistas com uma amostra obtida pelo método “tempo-localização”, que consiste na determinação dos perímetros de ocupação da população e seleciona os participantes em uma varredura em dias e horários aleatórios.

De acordo com os pesquisadores, o método possibilita que os dados colhidos sejam representativos de toda a população alvo.

A contagem populacional foi feita com dias e horários aleatórios. Já o estudo complementar para determinar os aspectos econômicos da obtenção da droga, envolveu a entrevista de 30 usuários selecionados através de amostragem por conveniência.

As estimativas do tamanho da população são realizadas desde 2016 utilizando uma metodologia desenvolvida especialmente para contabilizar o número médio de frequentadores da região, levando em consideração as variações na ocupação do território e flutuações da concentração de usuários em diferentes dias e horários.

Os resultados da metodologia a fizeram ser replicada em outras capitais do país, passando então a ser chamado de “Levantamento das Cenas de Usos de Capitais” (LECUCA).

“Devido ao cenário extremamente complexo apresentado na Cracolândia, que é constituída por uma população flutuante e também varia quanto aos espaços que frequenta, tivemos que utilizar metodologias igualmente complexas, que permitissem que os dados obtidos de fato representassem toda a diversidade dos indivíduos que vivem no local”, finaliza a pesquisadora responsável pelo estudo, Clarice Sandi Madruga.

Em entrevista à Rádio CBN SP, Clarice Madruga responde a perguntas sobre o estudo (que pode ser acessado na íntegra aqui). Veja trechos da entrevista:

CBN: É possível falar que um dia a Cracolândia vai acabar?

 Clarice Madruga: Um grande erro que a gente comete quando não está inserido no contexto, é enxergar esses usuários como se fossem uma única população, uma população homogênea, quando na verdade não são.

Um dos fatos mais interessantes que a pesquisa mostrou é que a maioria dos usuários vieram de suas próprias casas, de suas famílias. Eles tinham um passado onde já trabalharam e já estudaram. Então, é uma proporção pequena de pessoas que já eram vulneráveis antes do contexto da dependência química. Isto quebra um pouco muitos preconceitos que temos de achar que é tudo uma questão social e que, se oferecermos este amparo social unicamente, tudo será resolvido. É claro que não!

Precisamos pensar que a dependência química é uma doença crônica, gravíssima, dificílima de tratar e que são necessárias ações combinadas para isso – nunca só saúde ou só social. Sempre uma combinação de todos esses.

Outro aspecto importante revelado pela pesquisa mostra que, dentro da diversidade desta população tão heterogênea, existe uma proporção muito acessível a qualquer abordagem. Tanto que, durante as entrevistas, os próprios entrevistadores, muitas vezes, encaminhavam as pessoas para procurar algum tipo de ajuda.

 Então, existia esta vontade latente de ser ajudado, de sair de lá, mas ao mesmo tempo existe uma proporção grande de pessoas que estão lá há mais de 5 anos, que vão e que voltam e que tem a cracolândia como a sua grande referência social. As abordagens encontram sedes como essa da população que está lá.

 CBN: A maioria quer e pede ajuda. Há quantos anos existe a cracolândia?

 Clarice Madruga: Ela tem registro desde 1980.

CBN: Podemos dizer, então, que até agora nenhuma política pública foi eficaz neste sentido? Porque a gente só vê ela aumentando…

Clarice Madruga: Então, essa percepção é perigosa, porque de fora a gente tem essa impressão, realmente. É como se fosse uma torneira aberta: essa proporção que está realmente motivada tende a ser bem-sucedida e entrar no fluxo das ações que existem lá. Então, as ações funcionam sim, mas apenas para uma proporção desta população e não para 100%. O que o estudo mostrou é que tem mais ou menos um terço que está saindo, mas tem um terço sempre chegando.

Desde 2016 existem estes picos em que a população chega a 1500, 1800 pessoas, baixa depois de alguma operação, volta a 400/500 usuários lá. E o que se nota quando tem poucas pessoas é que a maior parte é de novos usuários. Então, não é que são os mesmos voltando para lá. O que acontece é que a torneira não fecha. Não tem ação de prevenção, de amparo ou apoio suficientes para as famílias poderem tratar os seus familiares da dependência, o que acaba os desconectando, desligando das famílias, perdendo seus vínculos sociais e indo para a cracolândia.

 É muito perigoso pensar que nada que se tem feito está funcionando, porque está, sim! Se não estivesse funcionando, a cracolândia estaria aumentando um terço todo ano. Então não podemos pensar que vamos resolver este problema sem ações, de verdade, com prevenção e amparo para tratamentos.

CBN: Um ponto muito interessante da pesquisa, embora tenha um fluxo que vai mudando, é que um pouco mais de 40% estão há mais de 5 anos lá. Desta forma, quase metade desta população está morando lá na cracolândia.

Clarice Madruga: Este é um desafio gigante, exatamente por isso: as pessoas têm a cracolândia como a sua referência social, sua rede está lá e, embora seja tão insalubre aquele contexto, esta é a referência de muitas pessoas e, de fato, ali é o único local onde elas tiveram um papel na sociedade: tem aquele que faz o churrasco, outro que dança, outros que fazem a arte e pedem nos faróis. Então, existe sim uma identidade social lá dentro, o que não quer dizer que precise ser modificada a forma de estar lá.

 Não dá para comparar a cracolândia com cenas de uso de outros países, por exemplo, onde a droga utilizada é a heroína, uma droga sedativa. O crack é um estimulante e, por isso, as pessoas não conseguem parar de caminhar. Jamais se conseguiria colocar estes usuários dentro de um único ambiente.

CBN: Essa pesquisa chegou a analisar o índice de morte dessas pessoas que frequentam a cracolândia?

Clarice Madruga: Existe um estudo do Dr. Marcelo Ribeiro na UNIAD que mostra o acompanhamento dos usuários de crack através dos anos, entendendo como funciona a mortalidade dos usuários. É interessante, antes de tudo, quebrar uma concepção de que o crack tem um aumento de chance de morte por overdose: isto não é verdade. A morte por overdose tem muito mais relação com a cocaína aspirada e com outras drogas do que com o crack, que é fumado.

O que está ampliando esta mortalidade que já é alta, são outros fatores, principalmente a violência (na maioria das vezes, o usuário que está neste contexto deve muito dinheiro para o traficante, o que inclusive até o impossibilita de sair da cracolândia) e também as doenças sexualmente transmissíveis (é mais comum o usuário ter uma mortalidade aumentada decorrente de casos de sífilis e doenças sexualmente transmissíveis como um todo).

 A pesquisa detectou isso, no sentido de entender como funciona a manutenção dos tratamentos para aquela população que, por um período, foi muito presente (o índice de pessoas que foram tratadas para sífilis, HIV e para hepatite é maior do que muitos países ao redor do mundo com cenas parecidas).

Temos um sucesso na abordagem nas cenas de uso, com as ações públicas para que os usuários fizessem e mantivessem o tratamento (é um desafio gigante fazer com que os usuários mantenham o tratamento).

O tratamento mais bem-sucedido e levado até o final é o da sífilis, pois é um tratamento rápido. Já o HIV não é tão simples, pois demanda uma manutenção contínua e requer que todos os serviços de saúde tenham isso como prioridade: identificar os positivos, abordar os usuários e fazer um trabalho de motivação para que eles iniciem o tratamento (todos tem depressão altíssima e pensamentos suicidas, o que torna mais desafiante o problema).

CBN: Podemos citar alguns números desta pesquisa: 49% dos usuários fizeram exame para tuberculose no último ano e quase 13% resultaram positivo. 8 usuários fizeram teste para sífilis e resultou 63% positivos. Na saúde mental, automutilação – 41%. 58% o quadro de psicóticos entre os que frequentam a cracolândia. Quase 40% são as tentativas de suicídio.

CBN: Chama a atenção o valor de R$ 192,00 por dia gasto por cada usuário na região e por mês circulam por lá 9,7 milhões de reais. O que os usuários dizem sobre a origem deste dinheiro?

Clarice Madruga: A mídia distorceu um pouco estas informações. Temos um estudo econômico paralelo que foi feito com uma amostra de apenas 30 usuários, porque são dados muito sensíveis e não seria possível conseguir isto com toda a amostra da pesquisa que acontece todo ano, no método com que ela é feita. O que se descobriu é que tem uma proporção enorme que consegue este dinheiro através de outra fonte de renda: pedir no farol e/ou nas estações e reciclagem (por isso a cracolândia parece tão suja: eles levam este material para fazer triagem e ver o que tem valor para vender ou trocar por drogas). O roubo entra como fonte de renda, mas não é a principal fonte. O valor de R$ 192,00 por dia é o valor médio. Alguns gastam muito mais.

CBN: Em outros lugares do mundo que também tem cracolândias, o que foi feito para reduzir e não ter esta dimensão que tem em São Paulo?

Clarice Madruga: As experiências em que podemos nos inspirar tem a ver com centros que fazem esta combinação ideal entre saúde e amparo social. Precisamos sempre pensar que haverá uma proporção que não possui mais uma família que possa ser resgatada e estes precisarão de amparo social a longo prazo – não adianta achar que atendimento ambulatorial somente vai resolver, porque eles não têm nem onde dormir à noite. Então, é preciso pensar no social, com uma cama para dormir e com o resgate dessas coisas mais básicas como tomar banho, tomar café da manhã.

CBN: Os EUA e a Inglaterra estão levando as pessoas que são presas por furtos e roubos para comprar drogas para um tratamento, ao invés de irem para as prisões. O que a senhora acha desta iniciativa?

Clarice Madruga: Muitas pessoas que estão nas penitenciárias foram presas não só por estarem portando ou traficando drogas ilícitas, mas também roubando ou cometendo algum crime para conseguir o dinheiro para consumo. Então, fazer ações de saúde que tratem e que façam esse resgate de reinserção social enquanto essas pessoas estão detidas é uma estratégia maravilhosa e que precisamos considerar, antes mesmo de pensar em mudar qualquer legislação. É preciso atender a população carcerária, identificar aqueles que precisam de atendimento e aproveitar esta oportunidade para que haja alguma ação de saúde.

CBN: Ainda em relação à pesquisa e o que levou a pessoa a começar a frequentar a região, em primeiro lugar, 31% respondeu que é porque lá tem droga. Mas porque as drogas chegam lá? Porque o estado não consegue controlar as drogas? É possível a polícia controlar a chegada de drogas na cracolândia?

Clarice Madruga: O que tenho percebido é que a polícia está fazendo o que consegue. As ações não acabam e acho que tem que ser mais estratégica. É muito difícil conseguir reprimir a entrada de drogas na cracolândia. Enquanto estivermos olhando só a cracolândia, não vai ser efetivo. Precisamos pensar em ações de segurança muito mais estratégicas e muito mais amplas. Acho que é isso que está fazendo falta.

Fontes: http://m.cbn.globoradio.globo.com/media/audio/290107/cracolandia-acaba-sendo-referencia-social-de-quem-.htm?fbclid=IwAR02QlQ9r1C7VLxKbEX8MN9qHq8ib2VE0TLK4DmpQuuY14NHwDrYsO81nm8

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/02/03/metade-dos-frequentadores-da-cracolandia-compra-droga-com-dinheiro-de-roubos-aponta-pesquisa.ghtml?fbclid=IwAR04YAKplF9OZbVUWmeCfimeyjX_KmDrTMLY6UE8ekHylqTm5EKS8Fqm-_o


Sobre a UNIAD

A Unidade de Pesquisa em álcool e Drogas (UNIAD) foi fundada em 1994 pelo Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira e John Dunn, recém-chegados da Inglaterra. A criação contou, na época, com o apoio do Departamento de Psiquiatria da UNIFESP. Inicialmente (1994-1996) funcionou dentro do Complexo Hospital São Paulo, com o objetivo de atender funcionários dependentes.



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