Conceitos básicos sobre Dependência Química

Cláudio Jerônimo da Silva

A dependência do álcool atinge cerca de 10% da população. Embora freqüente, é pouco diagnosticada pelos médicos. Em geral o foco dos profissionais estão nas doenças físicas associadas e não na dependência subjacente. A demora em se fazer o diagnóstico e estabelecer o tratamento pioram e prognóstico e propiciam uma idéia de que os pacientes dependentes de álcool raramente se recuperam. Quanto mais precoce o diagnóstico e o tratamento melhor as chances de melhora do paciente O médico clínico deve estar apto a fazer o diagnóstico, tratar os casos de dependência leve e uso nocivo e encaminhar ao especialista os pacientes com dependência moderada e grave.

Beber de baixo risco

Existe uma quantidade de ingestão de bebida alcoólica que pode ser considerada de baixo risco. Usamos a unidade de álcool, que é 10 g de álcool de puro, para medir quanto uma pessoa ingere de bebida alcoólica. Uma lata de cerveja normalmente contém cerca de 350 ml, e a concentração é ao redor de 5%, ou seja, 17 g de álcool, ou 1,7 unidades.
Uma dose de pinga com 50 ml e concentração ao redor de 50% teria o equivalente a 2,5 unidades. Uma garrafa de pinga (750 ml) tem cerca de 37 unidades. Um copo de vinho contem cerca de 1 unidade. Um homem adulto pode beber até no máximo 21 unidades de bebida alcoólica por semana, sendo no máximo 3 unidades por dia. Uma mulher adulta não grávida pode beber até 14 unidades por semana, não mais que 2 unidades por dia. A quantidade é diferente na mulher por conta da absorção maior, e da quantidade de gordura corporal proporcionalmente maior que o homem, que aumenta a biodisponibilidade do álcool. Além desta quantidade a pessoa estaria colocando a sua saúde em risco.

Uso nocivo

De acordo com a OMS o diagnóstico requer que um dano real tenha sido causado à saúde física e mental do usuário. Padrões nocivos de uso são freqüentemente criticados por outras pessoas e estão associados a conseqüências sociais adversas de vários tipos. O Uso Nocivo não deve ser diagnosticado se a síndrome de Dependência, um distúrbio psicótico ou outra forma específica de distúrbio relacionado ao álcool ou drogas estiver presente.

Síndrome de Dependência

A OMS (Organização Mundial de Saúde) adota o conceito de Síndrome de Dependência ao Álcool (SDA) cujos critérios estão descritos a seguir:
(1) Estreitamento do repertório de beber:
No começo a pessoa bebe com uma certa variabilidade. À medida que fica mais dependente, começa a beber todos os dias, e o padrão se torna estereotipado.
(2) Saliência do comportamento de busca do álcool:
O indivíduo tenta dar prioridade ao ato de beber ao longo do dia, mesmo nas situações socialmente inaceitáveis (por exemplo, no trabalho, quando está doente, dirigindo veículos, etc.).
(3) Aumento da tolerância ao álcool:
Aumento da dose para obter o mesmo efeito ou capacidade de executar tarefas mesmo com altas concentrações sangüíneas de álcool.
(4) Sintomas repetidos de abstinência: Os sintomas de abstinência mais marcantes como tremor intenso e alucinações só ocorrem nas fases mais severas da dependência. No inicio, esses sintomas são leves, intermitentes e causam muito pouca incapacitação. Sintomas de ansiedade, insônia e irritabilidade podem não ser atribuídos ao uso de álcool. Três grupos de sintomas podem ser identificados: físicos (tremores, náusea, vômitos, sudorese, cefaléia, caimbras, tontura); afetivos (irritabilidade, ansiedade, fraqueza, inquietação, depressão); sensopercepção (pesadelos, ilusões, alucinações visuais, auditivas ou tácteis)
(5) Sensação subjetiva de necessidade de beber: Existe uma pressão subjetiva para beber. Este sintoma foi atribuído no passado a uma compulsão. Atualmente considera-se como uma tendência psicológica em buscar alívio para os sintomas de abstinência.
(6) Alívio ou evitação dos sintomas de abstinência pelo beber:
- Este é um sintoma que na fase mais severa da dependência fica muito claro e a pessoa bebe pela manhã para sentir-se melhor. Mas ele também esta presente nas fases mais iniciais quando a sua identificação necessita um pouco mais de cuidado. A pessoa pode sentir uma melhora do nível de ansiedade e não atribuir isto à abstinência.
(7) Reinstalação da síndrome após abstinência;
Após período de abstinência que pode ser de dias ou meses assim que a pessoa volta a beber passa em curto espaço de tempo a beber no mesmo padrão de dependência antigo.


Dependência X Problemas

Existe uma distinção entre dependência e problemas relacionados a ela. Por exemplo, problemas no trabalho ou familiares não entram no critério de dependência. Existem duas dimensões distintas: de um lado a psicopatologia do beber e que seria a Dependência propriamente dita; e do outro, uma dimensão enfocando todos os problemas que decorrem do uso ou da dependência do álcool. A FIGURA 1 ilustra estas duas dimensões: no eixo horizontal a Dependência e no eixo vertical os problemas variando ao longo de um contínuum. No quadrante I estariam os indivíduos que na medida que aumentam a gravidade de Dependência aumenta a probabilidade de desenvolver problemas dos mais diversos. No quadrante II teríamos a condição onde o indivíduo embora não seja dependente, já pode apresentar problemas decorrentes do uso de bebidas alcoólicas - por exemplo, beber e dirigir podendo sofrer acidentes. No quadrante III estariam os indivíduos que não apresentam nem problemas nem dependência. São os indivíduos que fazem um uso de bebida alcoólica considerado normal ou de baixo risco. O quadrante IV inexiste (dependência sem problemas).

Problemas com uso do álcool

   

FIGURA 1: Desenho esquemático da relação entre dependência e problemas associados ao uso do álcool.

 

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