A indentificação do uso de drogas nas escolas

Texto: Ronaldo Laranjeira

Grande polêmica foi criada com o projeto na câmara que propõe a identificação, através de exames biológicos, o uso de drogas nas escolas. O deputado que está propondo esta mudança na lei está em sintonia com o seu eleitorado, pois numa pesquisa feita em São Paulo, cerca de 90% dos pais aprovam este tipo de exame. Pelo lado do governo a SENAD (Secretaria Nacional Anti Drogas) criou uma comissão de especialista que ao que tudo indica terá uma postura contrária a esses exames. Está criada uma comédia de erros.

Toda esta situação ocorre pois efetivamente não temos uma política consistente e reconhecida pela população na área de drogas. As famílias aproximam-se de um pânico moral ao sentirem-se pouco capazes de lidar com o problema das drogas que aparentemente está crescendo ano a ano, ao verem seus filhos cada vez mais expostos às drogas, ao verem as escolas despreparadas para lidar com o problema e ao não confiarem na anêmica política pública que vem sendo proposta nos últimos anos. Portanto uma medida que vise identificar quem está usando drogas tem um grande apelo para as famílias preocupadas.

Os EUA podem servir como um contraste da falta de ação governamental brasileira pois já há vários anos vêem adotando políticas consistentes na área. Muito tem sido discutido sobre as bases ideológicas da política americana, mas tem sido possível mostrar através de pesquisas que o consumo nacional de vários tipos de drogas vêem decrescendo nos últimos anos. A grande vantagem da política americana é que ela é sujeita a avaliações periódicas, por pesquisas que tem por base toda a população americana, e isto aumenta o nível de confiança da população em relação às ações propostas. E muitas vezes ocorrem mudanças nesta política. Um bom exemplo é uma pesquisa divulgada há poucas semanas, que avaliou exames biológicos para identificar usuários de drogas nas empresas, onde se questionou o uso sem controle desses exames. Chegou-se a conclusão que esses exames tinham um custo muito alto e um benefício discutível. O grande argumento, baseado nos dados da pesquisa, é que existem formas melhores de se identificar usuários de drogas, com um custo menor e sem infligir nenhum direito constitucional. Faz muito mais sentido avaliar o desempenho do funcionário, através de contatos constantes da chefia, do que fazer uma exame pretensamente sofisticado com o intuito de identificar apenas um dos aspectos da vida do indivíduo.

No Brasil a falta de ações nas escolas tem levado a esta grande desconfiança da população. Não podemos, no entanto achar que fazer prevenção nas escolas seja uma coisa fácil e simples e que bastam informações para as crianças. Este tipo de raciocínio simplista já foi condenado há tempos pelas pesquisas. O ideal é que as escolas tivessem um programa de prevenção consistente, que deveria ter os seguintes componentes:

1 - Uma intervenção universal para todos os alunos. Ou seja informações sobre os mais diferentes tipos de drogas no organismo humano que fosse incorporado ao curriculo escolar desde os primeiros anos. Vários tipos de pesquisas mostraram que não é fácil compor uma intervenção como esta, e que muito dinheiro já foi gasto inutilmente neste tipo de projeto. Mas vem sendo criado um consenso que, quando se insere essas informações em outras matérias do currículo escolar como na área de biologia, química, e especialmente em educação de saúde acaba-se criando um impacto positivo e duradouro nas crianças. Ênfase tem que ser dada nas drogas mais consumidas que são o tabaco e o álcool.
2 - Não importa o quão eficiente seja um programa de prevenção universal para todas as crianças, algumas delas deverão começar a consumir drogas. Para este grupo de usuários, mesmo que experimentais, uma intervenção universal não será suficiente. Elas precisarão de um programa específico que visaria uma orientação mais especializada feita pelos professores, para discutir alternativas de comportamento.
3 - Para aquele grupo de alunos que continuarem consumindo drogas, não importa se lícita ou ilícita, aí sim deveríamos ter um programa bem mais estruturado, com profissionais com melhores informações técnicas de orientação psicológica, de preferência de uma unidade especializada em álcool e drogas na própria região da escola. Esses alunos poderiam beneficiar-se de exames biológicos que constatasse a ausência de uso como uma condição para a permanência na escola. Portanto esses exames servem menos para o processo de identificação e mais para o processo de monitorar o uso ao longo de um tratamento.
4 - Um programa de prevenção não estará completo se não houver um treinamento dos próprios pais em relação ao problema. A maioria dos pais está despreparada para entender e agir com relação ao fumo, álcool e drogas ilícitas. Um envolvimento dos pais no processo educacional e nos comportamentos dos seus filhos é fundamental para um programa de prevenção.

Com a proposta deste projeto o deputado estimulou um debate nacional de grande importância para as gerações futuras. Será uma pena se desta polêmica causada por este projeto os pais e o deputado forem derrotados por uma ação política da SENAD e perdermos a oportunidade de ampliarmos o debate sobre as ações de prevenção nas escolas.

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