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Ecstasy
(3,4 Metilenodioximetanafetamina - MDMA): Uma droga velha, um problema
novo!
Texto:
Ronaldo Laranjeira
Introdução
O uso recreacional da 3,4 Metilenodioximetanafetamina, MDMA (Ecstasy)
tem sido referido por alguns pacientes em tratamento para dependência
de drogas em São Paulo. Outros países como os EUA, Inglaterra
e Austrália também tiveram um aumento do consumo desta droga
o que propiciou um grande debate a respeito da natureza desta substância.
Embora o MDMA seja uma droga relativamente velha, pois foi sintetizada
em 1914, o seu uso recreacional só foi identificado na ultima década,
diferente de outras drogas similares como as anfetaminas e o LSD. Devido
ao uso recente, os profissionais de saúde podem não estar
familiarizados com os reais riscos desta droga. Por exemplo, podem não
saber que as pesquisas recentes mostraram sérios riscos em termos
de saúde, inclusive que o MDMA seria uma potente toxina dos neurônios
serotoninérgicos no cérebro de animais.
Aparentemente
o MDMA segue o curso histórico de muitas outras drogas, começa
com uma experimentação por um grupo de indivíduos
que segue um debate na mídia onde existe uma representação
de uma droga segura que seria mais uma panacéia para vários
males emocionais e progressivamente descobre-se uma série enorme
de riscos para a saúde. O objetivo desta revisão é:
1) traçar um histórico do MDMA nos países
onde ela tem sido mais usada;
2) discutir os principais efeitos químicos, farmacológicos,
toxicológicos;
3) discutir os possíveis efeitos adversos do MDMA em humanos;
4) discutir o perfil de uso em outros países e os possíveis
padrões de uso no nosso meio;
5) objetivo final será também de antecipar políticas
que pudessem minimizar as futuras conseqüências desta droga
e principalmente fornecer informações aos profissionais
de saúde que possam ter contacto com a mídia dos riscos
reais desta droga.
Histórico
O MDMA foi sintetizado e patenteado por Merck em 1914 com o intuito de
ser um novo moderador do apetite (Shulgin, 1986). Foi ignorado pela comunidade
científica até metade dos anos setenta quando em 1978 Shulgin
e Nichols relataram que o MDMA produzia um estado controlável de
alteração da consciência com harmonia sensual e emocional'
e sugeriram que poderia ser usado como auxiliar psicoterapêutico.
Em 1985 um aumento do interesse científico e social ocorreu com
a decisão de DEA (Drug Enforcement Agency) dos EUA que restringiu
severamente o uso do MDMA colocando-a na lista das substâncias proibidas
(`schedule I'). O que justificou esta ação foi o aumento
do uso recreacional desta droga que além de não ter utilidade
médica comprovada as evidências indicavam que uma droga similar
o MDA (3,4-metilenodioxiamfetamina) produzia toxicidade em neurônios
serotoninérgicos em animais.
Esta situação promoveu um grande destaque na mídia
e estimulou um aumento da experimentação desta droga logo
em seguida. Embora o pico de consumo tenha caído, em seguida o
MDMA continuou a ter evidência na mídia devido ao seu próprio
nome fantasia - ecstasy -, e ao apelo em produzir uma suposta melhora
do relacionamento entre as pessoas. Estes dois atributos: o de ser uma
droga segura e o de melhorar o relacionamento interpessoal, contribuiu
para um aumento do uso.
Química
O MDMA é o N-metil-1-(3,4metilenodioxifenil)-2-aminopropano e estruturalmente
é relacionado aos estimulantes anfetamínicos e aos alucinógenos.
Estudos em
Humanos
Padrão
de Uso
Existem três padrões de uso que foram identificados na literatura:
em sessões de psicoterapia, como uso recreacional em pequenos e
grandes grupos. Quando foi usado em psicoterapia era usado na dose de
50 a 200 mg, a partir do momento que esta droga ficou proibida este uso
praticamente desapareceu. Quando usada de forma recreacional a dose típica
é de 75-150 mg e algumas vezes envolve uma dose auxiliar de 50-100mg
algumas horas depois. A freqüência de uso varia bastante. Solowij
e col (1992) mostraram que mais de 70% dos usuários usam menos
do que uma vez ao mês. O uso mais consistente nos países
onde o MDMA se tornou um problema foi em encontros sociais onde centenas
de adolescente se encontravam para uma experiência que durava a
noite toda de música, dança e vídeos (Raves).
Efeitos
Psicoativos
Os efeitos estimulantes do MDMA são tipicamente notados depois
de uma pequena ingestão da droga incluem um aumento da freqüência
cardíaca, aumento da pressão sanguínea, boca seca,
diminuição do apetite, atenção dispersa, elevação
do humor e contratura mandibular. Quando tomado em doses típicas
o MDMA não é francamente alucinógeno, isto é,
muitos indivíduos não têm experiências alucinatórias
auditivas ou visuais.
O estudo de Dowing (1986) foi organizado para dar dados sobre os efeitos
cardiovasculares, bioquímicos e neuro-comportamentais de uma dose
única de MDMA. 21 voluntários saudáveis com experiência
prévia com MDMA participaram do estudo, onde foi usada uma dose
entre 1.75 e 4.18 mg/kg, e onde eles relatavam os aspectos positivos e
negativos das experiências físicas e emocionais. Os efeitos
agudos (até 3 horas) foram: euforia; aumento da energia física
e emocional; aumento da percepção sensual; diminuição
do apetite. A maioria dos indivíduos apresentou: trisma; aumento
dos reflexos profundos; e instabilidade da marcha. 40% apresentaram dificuldades
no julgamento geral e 30% dificuldades de cálculos matemáticos
durante o mesmo período. Não houve identificação
de sintomas físicos duradouros após o término do
efeito da droga.
O estudo
feito por Gree e Tolbert (1986) foi um resumo de 29 sessões clínicas
com MDMA como auxiliar psicoterapêutico. Dados consistiam na descrição
fenomenológica das observações terapêuticas
e experiências dos pacientes antes, durante e depois do uso do MDMA.
Os pacientes receberam uma dose oral entre 75-150 mg e uma dose extra
de 50-75 mg após os efeitos começarem a desaparecer. Os
efeitos relatados nesse grupo foram similares àqueles relatados
em voluntários normais. Todos os pacientes que estavam em sessões
de terapia de casal relataram aumento na comunicação, e
melhora na sensação de proximidade do parceiro. Todos pacientes
relataram atitudes positivas e trocas emocionais e a maioria algum tipo
de benefício cognitivo. Todos os pacientes também relataram
efeitos adversos como: episódio de pânico, fatiga, bruxismo,
náusea, distúrbio da marcha e sintomas simpatomiméticos.
Três
outros estudos usaram metodologia retrospectiva. Peroutka e col coletaram
dados com estudantes universitários que usaram recreacionalmente
MDMA. Agudamente a maioria dos estudantes relatou uma sensação
de proximidade com as outras pessoas, trisma, taquicardia, bruxismo, boca
seca e aumento da atenção. Os efeitos subagudos foram: tonturas;
dores musculares; e fatiga. Os efeitos retardados incluíam sensação
de proximidade, depressão, músculos da mandíbula
tensos e dificuldade de concentração.
Liester e
col (1992) estudaram 20 psiquiatras que haviam feito uso de MDMA. Eles
relataram as seguintes experiências: percepção do
tempo alterada (90%), aumento da capacidade de comunicação
(85%), diminuição das defesas (80%), diminuição
do medo (65%), diminuição da sensação de alienação
em relação aos outros (60%), alteração da
percepção visual (50%), aumento das emoções
e diminuição (50%) e diminuição da agressão
(50%). Conseqüências neuropsiquiátricas ocorreram em
menos de 50% dos indivíduos e consistiam de: alteração
da fala, percepção de memórias inconscientes, diminuição
da obssessividade, mudanças cognitivas, diminuição
da inquietação, e diminuição da impulsividade.
Efeitos adversos relatados pela maioria foram: diminuição
do desejo de executar tarefas físicas e mentais (70%), diminuição
do apetite (65%) e trisma (50%).
Em um dos
melhores estudos do ponto de vista metodológico, Solowij e col
(1992) fizeram contacto através de `snowball peer network technique'
com 100 usuários de MDMA. Esta pesquisa revelou que a maior parte
dos usuários usaram o MDMA de uma forma infreqüuente e principalmente
com o intuito recreacional. 94% dos usuários relataram que um aumento
dos estados positivos do humor (`positive mood state') era o melhor efeito
do MDMA. Em contraposição 86% relatou estados emocionais
negativos na maior parte das vezes em que usaram. Cerca de metade dos
indivíduos haviam também feito uso de anfetaminas e alucinógenos.
A tabela 1 mostra os 10 maiores efeitos presentes com o uso do MDMA e
compara com anfetaminas e alucinogênicos.
Tabela 1 - Os 10 sintomas mais freqüentemente referidos em relação
ao MDMA, Anfetaminas e Alucinógenos.
|
MDMA
|
Anfetaminas
|
Alucinógenas
|
|
muito
falante
|
energético
|
pesnsamento
aberto
|
|
mente
aberta
|
muito
falante
|
mente
aberta
|
|
próximo
com outros
|
alerta
|
esclarecido
|
|
felicidade
|
confiante
|
melhor
insight
|
|
fácil
contato social
|
pensamento
claro
|
inquieto
|
|
melhor
aceitação
|
atento
|
melhor
aceitação
|
|
sensual
|
aumento
auto-estima
|
energético
|
|
euforia
|
mente
aberta
|
fácil
contato social
|
|
confiante
|
fácil
contato social
|
muito
falante
|
|
descuidado
|
melhor
aceitação
|
felicidade
|
Aparentemente
MDMA tem os mesmos efeitos colaterais do que a anfetamina e os alucinógenos.
Os efeitos do MDMA relacionados a senso percepção parecem
que só ocorrem em altas doses, e seria, portanto, uma das condições
que distinguem esses dois grupos de drogas.
Tabela 2
- Os 10 sintomas colaterais mais freqüentemente referidos em relação
ao MDMA, Anfetaminas e Alucinógenos.
|
MDMA
|
Anfetaminas
|
Alucinógenas
|
|
perda
de apetite
|
perda
de apetite
|
ilusão
visual
|
|
boca
seca
|
insônia
|
alucinação
visual
|
|
taquicardia
|
taquicardia
|
perda
apetite
|
|
tensão
mandíbula
|
tensão
mandíbula
|
insônia
|
|
insônia
|
ranger
os dentes
|
confusão
|
|
ranger
os dentes
|
boca
seca
|
concentração
diminuída
|
|
sensação
de calor e frio
|
palpitação
|
alucinação
auditiva
|
|
sudorese
|
irritabilidade
|
ansiedade
|
|
concentração
diminuída
|
vontade
de urinar
|
instabilidade
mental
|
|
vontade
de urinar
|
tremor
|
taquicardia
|
Complicações
do uso
Uma grande diversidade de complicações clínicas já
foi identificada após o uso do MDMA. As complicações
físicas e psiquiátricas mais citadas na literatura estão
na Tabela X. Essas complicações são muitas vezes
fatais, a primeira morte ligada ao MDMA foi relatada nos EUA em 1987 (Dowling
e col, 1987) e na Inglaterra em 1991 (Chadwick e col, 1991). Problemas
comportamentais como comportamentos descuidados também foram relatados
após o uso de MDMA. Henry e col. (1992) descreveram 5 acidentes
de trânsito envolvendo motoristas, passageiros e pedestres em que
o MDMA estava implicado. Um outro artigo também descreveu um caso
fatal de um usuário que se acidentou após uma tentativa
de 'surfar' no seu carro (Hooft e van de Voorde, 1994). Duas das complicações
mais citadas e mais relacionadas com mortalidade, hipertermia e hepatoxicidade,
merecem uma discussão em maiores detalhes.
Tabela X
- Complicações do Uso do MDMA
|
Complicações
|
Autores
|
| Físicas |
| Retenção
Urinária |
Bryden
e col, 1995 |
| Coagulação
Intravascular Disseminada |
O´Connor,
1994 |
| Hipertermia |
Henry e col, 1992 |
| Morte
Súbita |
Suarez
e Riemersa, 1998 |
| Anemia
Plástica |
Marsh
e col, 1994 |
| Arritmia
Cardíaca |
O´Connor,
1994 |
|
Insuficiência Hepática |
Henry
e col, 1992 |
| Convulsões |
O´Connor,
1994 |
| Insuficiência
Renal |
Henry
e col, 1992 |
| Hemorragia
Cerebral |
Manchanda
e Connolly, 1993; Harris, 1992; |
| Trombose |
Rothwell,
1993 |
| Psiquiátricas |
| Ataques
de Pânico |
Whitaker-Azmitia
e Aronson, 1989 |
| Depressão |
Benazzi
e Mazzoli, 1991 |
| Déficit
de Memória |
McCann
e Ricaurte, 1991 |
| Delírios
Somáticos |
| Alucinações
Visuais |
| Ilusões |
| Distúrbios
do Sono |
| Psicose
Crônica |
Schifano,
1991; McGuire e Fahy, 1991 |
Tabela
X - Complicações graves associadas com MDMA
| Condições
associadas com ingestão do MDMA |
| Social |
Paciente
internado após festa, show ou danceteria
|
| Sistema
Nervoso Central |
Agitação,
coma, convulsões, rigidez muscular, hipertermia, sudorese,
pupilas dilatadas, pânico, paranóia
|
| Sistema
Cardiovascular |
Taquicardia,
arritmia ventricular, hipotenção, sangramento espontâneo
|
| Sistema
Gastrintestinal |
Icterícia,
hepatomegalia
|
| Sistema
Renal |
Oligúria,
mioglobinúria
|
| Bioquímica |
Acidose
metabólica, hiperpotassemia, aumento da creatinina, creatinina
fosfoquinase, teste de funções hepáticas, hipoglicemia
|
| Hematologia |
Coagulação
Intravascular Disseminada (trombocitopenia, perfil da coagulação
anormal, fibrinogênio baixo).
|
Hipertermia
Em 1994 O'Connor
relatou 26 casos de hipertermia induzida pelo MDMA. O caso típico
era de um jovem que havia feito uso de MDMA numa danceteria, festa ou
show de música pop, que são situações associadas
com atividade física prolongada (dançar), ventilação
ruim e hidratação insuficiente. O início dos sintomas
ocorreu nas primeiras duas horas após o uso e foi caracterizado
por colapso agudo, inconsciência e convulsões. O exame físico
revelou: hiperatividade simpática, taquiarritmia, hipertensão,
sudorese, dilatação pupilar, rigidez muscular e temperatura
corporal acima de 40 Celsius. A apresentação de uma emergência
médica incluía as seguintes complicações sérias:
acidose, coagulação intravascular disseminada, rabdomiólise,
hiperpotassemia, insuficiência renal aguda, insuficiência
hepática, coma e morte. Dos 26 casos relatados 9 morreram entre
2 e 60 horas. Nenhum paciente com temperatura acima de 42 Celsius sobreviveu.
O tratamento foi sintomático e teve o objetivo primário
de reduzir a temperatura corporal. Tratamento com dantrolene (também
usado nos casos de hipertermia maligna induzida por anestesia e síndrome
maligna do neuroléptico) foi benéfico com 9 dos 11 casos
tratados que sobreviveram. Este distúrbio aparentemente é
relacionado com o efeito do MDMA na função serotoninérgica
central, semelhante a uma síndrome serotoninérgica vista
em pacientes fazendo uso de combinação de antidepressivos
tricíclicos e inibidores da monoamino-oxidase.
Hepatoxicidade
Em 1992 Henry
e colaboradores descreveram 7 casos de hepatoxicidade associada com o
uso de MDMA. Nenhum dos casos tinha história de alcoolismo, uso
de drogas endovenosas, hipertermia ou hepatite viral. Todos os casos tinham
icterícia aguda e função hepática diminuida.
A recuperação ocorreu em 5 dos 7 casos, mas houve uma demora
de vários meses. Um caso morreu e outro necessitou de transplante
hepático que ocorreu com sucesso. A causa da hepatite associada
ao uso de MDMA não é conhecida, mas um tipo de hepatite
tóxica idiossincrática ao MDMA ou algum de seus metabólitos
é a causa mais provável.
A hipertermia
e a hepatoxicidade são reações que não são
dose dependente. A maioria dos pacientes tomou entre um e cinco cápsulas
e tinham níveis plasmáticos de MDMA entre 0.11 e 0.42 mg/litro.
Na realidade um caso que referiu uso de 42 cápsulas de MDMA e que
atingiu níveis plasmáticos de 7.72mg/litro não causou
efeitos colaterais mais sérios que uma `ressaca'e taquicardia (Henry
e col, 1992).
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