De fato ainda tem gente que pensa isso. E muita gente! Esse preconceito com as doenças mentais e de quem as trata vem de longe - de uma época na qual pouco ou quase nada se podia fazer aos pacientes com transtornos psiquiátricos. Os pacientes com Esquizofrenia (que é uma das mais graves doenças mentais) eram colocados em navios que não paravam. Eles ficavam navegando na "Nau dos Loucos", parando em portos europeus apenas para abastecimento. Mas a história da medicina geral não é diferente. Quem já leu um livro chamado "O Físico" há de se lembrar dos recursos que os cirurgiões barbeiros tinham para tratar seus doentes. Não eram nem médicos porque a estes poucos tinham acesso. A grande maioria das pessoas tratava-se com os cirurgiões barbeiros que de tempos em tempos passavam pelas cidades vendendo medicamentos à base de raízes e realizando procedimentos cirúrgicos que hoje seriam considerados atrocidades. A psiquiatria sofreu com a agravante de que seus métodos terapêuticos foram utilizados com finalidades punitivas e inescrupulosas. Mas não do que nos envergonharmos. A psiquiatria é uma área da medicina que vem evoluindo muito e hoje reconhecemos doenças que antes não eram diagnosticadas e dispomos de uma gama de tratamentos farmacológicos e não farmacológicos que nos permite adequar os medicamentos de forma individualizada a cada cliente que nos procura. Doença mental não é mais sinônimo de Esquizofrenia (doença na qual a pessoa perde a crítica, tem alucinações e pensamentos delirantes de que está sendo perseguida e torna-se agitada e agressiva). Hoje a Psiquiatria trata a primeira causa de absenteísmo (falta) ao trabalho - a depressão. Trata de um dos maiores males que assola a modernidade que é a ansiedade doentia. Trata as Doenças obsessivas (pensamentos repetitivos, inconvenientes e sem nexo que incomodam e causam medo e vergonha). Trata a Síndrome do Pânico (um pico de ansiedade intenso com sensação de morte, aumento dos batimentos cardíacos e sudorese, que assusta e até há pouco tempo não se fazia diagnóstico). E trata dos dependentes químicos - de tabaco, de álcool, de cocaína, etc. E quem são as pessoas que têm Doença Obsessiva, Pânico, Ansiedade, Depressão e Dependentes Químicos? São as pessoas que encontramos todos os dias no trabalho, na escola, no metrô. São pessoas comuns que desenvolveram uma doença que é tratável. Hoje damos preferência aos tratamentos ambulatoriais, porque cientificamente mostraram-se eficazes e mais econômicos, além de não segregar, discriminar o paciente. Como qualquer doença, hoje as doenças mentais são tratadas no hospital apenas quando apresentam gravidade para tanto. Neste início de século, quem ainda pensa que psiquiatra é médico de louco, está atrasado na história pelo menos 100 anos. Dizer que quem tem Dependência Química, ansiedade, Depressão é louco, representa no mínimo um contra-senso.